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Final de ano: compras ou contas?


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As festas de final de ano se aproximam. As lojas e estabelecimentos da cidade já se enfeitam com decorações natalinas, e a população espera o 13.º para preparar belas e fartas mesas e comprar presentes. No entanto, as expectativas dos brasileiros não chegam perto dos sonhos de consumo esperados. Muitos deles aguardam o 13.º para pagar contas atrasadas e acumuladas durante o ano e não gastá-lo com boas frutas, carnes de primeira e bons presentes. Para garantir o futuro próprio e da família, os cidadãos fazem malabarismos para driblar a instabilidade da economia brasileira.

O fim de ano significa mais que a ceia de Natal. As perspectivas de um ano novo melhor tiram o sono de muitos, principalmente os assalariados. Como tantas Marias, Joãos e Josés que desconhecem que pagam pelos impostos indiretos do consumo do pão, do leite, do café, dos remédios, da água, da luz e de outros produtos que consomem.

Segundo o Instituto de pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), quem ganha mais de 30 salários mínimos gasta 7,3% da renda total no pagamento dos impostos indiretos e quem ganha até 2 salários mínimos gasta 26,5%. Quem recebe R$ 480, gasta R$ 127,20 com impostos.

Devido ao modelo de concentração de renda, os impostos indiretos são aplicados da mesma forma para pessoas que recebem salários diferentes: 1 litro de leite na padaria custa R$ 1,10 e, neste preço, R$ 0,25 são impostos. Quem recebe R$ 10 mil de salário por mês também paga R$ 0,25 de imposto.

Segundo dados da última pesquisa do IBGE, os 10% mais ricos detêm 50% da renda nacional. Os que não fazem parte das estatísticas correspondem à massa dos cidadãos que sobrevivem de baixos salários.

Os baixos salários levam as pessoas a consumir à prestação e, nesse sistema de crédito, as lojas populares nem sempre repassam, de forma automática, a queda da Taxa Selic ao mercado. Uma das maiores taxas do mercado é aplicada por um estabelecimento popular: 5,9% ao mês para compras com pagamento sem entrada e parceladas em até 12 meses, o valor dos juros pode ser verificado no próprio jornal da empresa.

A taxa aplicada também cobre o índice de inadimplência dos cidadãos. Quem compra uma geladeira de R$ 1 mil e decide parcelar durante os meses do ano, gasta R$ 1.622,40. O que foi gasto somente de juros daria para comprar, numa única parcela, um TV 14 polegadas, ou um microondas ou um fogão quatro bocas com acendimento automático.

A maioria do jornalismo econômico, voltado, em grande parte, para analistas, economistas e banqueiros, não explica a todas as Marias, a todos Joãos e Josés que, se não fossem atribuídos impostos indiretos aos alimentos da cesta básica, o custo para o bolso do cidadão seria reduzido. Não explica também que a causa maior de crescimento das dívidas é a cobrança de juros em cima de juros, praticada pelas instituições financeiras, mas ilegal quando se trata de cheque especial.

Deveria ser um escândalo o Brasil ter uma economia deficiente, na qual o Estado está quebrado, os serviços públicos estão em decadência (as greves são um bom exemplo), as empresas estão quebrando e o único setor que lucra e se desenvolve são os bancos. Um setor que se sustenta através da riqueza e da pobreza dos outros.

Se comparados, os preços das empresas privatizadas de serviços públicos eram de três ou quatro vezes menores que o atual, e os serviços pioraram. Isso deveria ser assunto tratado todos os dias nos noticiários. No entanto, um novo ano se aproxima e a grande nobreza do brasileiro está na fé e na expectativa de uma vida mais digna e, quem sabe, se não for pedir muito, com algumas regalias.

A autora, Maria Fernanda Ribeiro, é jornalista

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