Morreu como herói. Yasser Arafat saiu da vida para entrar na história, embora ainda não se saiba que lugar haverá de ocupar na história. Para os israelenses mais radicais foi um “terroristaâ€, talvez esquecidos de que Menahem Begen também o foi. Mandou pelos ares o Hotel Rei Davi, quartel-general dos ingleses quando a Palestina estava sob proteção britânica e tentavam impedir a volta em massa dos judeus à Terra Prometida depois de tê-la abandonado por mais de dois mil anos.
Arafat na televisão sempre exibia um sorriso entre a barba rala. Sobrevivia há três anos confinado na residência da Mukata, arruinada pelos bombardeios. Mesmo com todas as privações de lá só saiu para morrer. Os judeus bem que poderiam, numa última homenagem a tão valoroso inimigo de muitas batalhas, permitir que seu corpo fosse enterrado na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, como era seu desejo. Afinal, com Arafat morto, com quem Ariel Sharon irá brigar?
Quarenta anos de luta não foram em vão. Nesse período a Fatah, de grupo terrorista transformou-se em Organização pela Libertação da Palestina. A OLP saiu do anonimato e transformou-se numa poderosa organização político-militar, reconhecida pela ONU como autoridade governamental de um Estado independente inserido no concerto das demais nações. Arafat, com o coldre vazio e um ramo de oliveira nas mãos, comemorou no plenário da ONU. Se foi um visionário quando achou que poderia destruir Israel, também soube ser comedido ao perceber que jamais poderia derrotar o judaísmo internacional. Seu lado pragmático falou alto ao assinar acordos de paz com Yitzhak Rabin. Ambos ganharam o Prêmio Nobel da Paz. O gesto de boa vontade pela criação de dois estados independentes custou a vida de Rabin em 1995, assassinado por um radical do seu próprio país. Esvaiu-se o sonho da coexistência. No ano seguinte Israel nega-se a sair do Hebron. Uma série de atentados mata 60 pessoas em Israel. Shimon Perez manda bombardear o Líbano matando dezenas de civis e provocando o êxodo de meio milhão de pessoas.
Reacendeu-se o ódio e a liderança e a autoridade de Arafat não conseguiram conter os garotos armados de pedra contra os tanques. Da Intifada (revolta das pedras) nasceram os homens-bomba, nova forma de resistência que estarreceu o mundo e que os israelenses julgavam ter logo um fim, pela impossibilidade de “renovação†do esquadrão da morte. Engano. Todos os dias surgem legiões de homens e mulheres, jovens e velhos dispostos a sacrificar a própria vida. Esse exemplo reproduz mártires no Iraque, na Indonésia, no Paquistão e a escalada sangrenta prossegue. Nem os Estados Unidos estão imunes mesmo sendo hegemônicos como força militar considerada “imbatívelâ€. Ninguém sabe como combater um inimigo sem rosto. Nem todo perfume da Arábia eliminará o cheiro de sangue – diria Shakespeare (Macbeth).
Que será agora da Palestina? O que significa o desaparecimento de quem era muito mais um mito do que um político de carne e osso? Se George W. Bush negava a Arafat o caráter de interlocutor do conflito, esse problema deixa de existir. Da mesma forma Ariel Sharon, que se negou a pronunciar o nome do líder palestino e a oferecer condolências, também não tem mais motivos para furtar-se a restabelecer o diálogo. O povo israelense deve estar cansado de tantas guerras desde 1946. Do lado árabe todas as famílias guardam luto por um ou mais entes queridos caídos no campo de luta ou mesmo na condição de vítimas inocentes.
Árabes e judeus têm as mesmas raízes. Como o grande antepassado dos povos semitas e condutor legendário de Israel do Antigo Testamento, Yasser Arafat foi o Moisés palestino.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC