Política

Incerteza cerca futuro da Palestina

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 5 min

A morte de Yasser Arafat colocou um ponto de interrogação no jogo político que cerca a tumultuada relação entre Israel e a Palestina. Embora não se tenha dúvidas de que sua figura encarna como ninguém o que há de mais legítimo na luta pela transformação da Palestina em um Estado soberano, Arafat já havia perdido o apoio de segmentos ligados à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que o acusavam, com o apoio de outras facções mais radicais, de ter um comportamento frágil diante do embate com Israel.

Prever o que vai acontecer na região é um exercício de futurologia arriscado. Para o professor Said Yussuf Abu Lawi, diretor do Instituto de Ensino Superior de Bauru (Iesb), o estabelecimento de uma composição adequada para reagrupar as facções na busca do principal objetivo - que é o reconhecimento da Palestina como Estado - e praticamente impossível. Yussuf é filho de palestinos e estudioso da causa.

“Avalio que desde a assinatura dos acordos de paz há uma grande estratégia por parte de Israel. Com relação aos territórios ocupados (Cisjordânia e Faixa de Gaza), Israel precisa ganhar tempo. Acho que o primeiro-ministro Ariel Sharon concluiu que esse tempo está se expirando. Israel vem tentando, desde a Guerra dos Seis Dias (1967), ocupar demograficamente esses territórios”, explica.

Segundo ele, há cerca de 1,3 milhão de palestinos residindo na Faixa de Gaza contra 8 mil colonos judeus. “Na Cisjordânia são 2,3 milhões de palestinos contra 300 mil colonos judeus. Acho que Sharon quer concentrar suas forças na Cisjordânia para segmentar aquele território como israelense. Mas dificilmente isso vai ocorrer. Por isso que Israel quer ganhar tempo”, opina.

Disputa milenar

A disputa pela região é milenar. Envolve os antigos filisteus (palestinos) e os judeus. “A influência dos israelenses é muito grande, principalmente nos Estados Unidos. Eles dominam uma boa parcela da economia norte-americana. Daí a razão do socorro sempre providencial dos Estados Unidos em relação aos israelenses”, analisa Yussuf, que prevê que nem mesmo diante das pressões internacionais será possível viabilizar, a curto ou médio prazo, a criação do Estado da Palestina.

O tão esperado estabelecimento de paz na região passa, necessariamente, por um acerto de convivência harmoniosa entre judeus e palestinos, cada qual aceitando e respeitando suas culturas religiosas. Para o historiador Ney Vilela, é um equívoco acreditar que os dois povos possam conviver pacificamente na mesma região. Ele é o autor do livro “Irmão inimigos” (Editora Rima, 195 páginas, R$ 37,00), cuja segunda edição foi lançada recentemente.

A obra conta a história do conflito entre judeus e palestinos. Vilela tem opinião formada sobre a situação.“Os judeus afirmam que a região é a terra prometida. Os palestinos e muçulmanos consideram Jerusalém um lugar sagrado. Esses dois corpos não vão ocupar o mesmo espaço. Acho que a única possibilidade que existia – hoje já está ultrapassada pelos fatos - era que a Organização das Nações Unidas (ONU) e o mundo tentassem fazer com que aquela região fosse de jurisdição mundial, onde judeus e palestinos pudessem conviver”, explica.

Vilela diz que é preciso lembrar que o atual “comandante” de Israel, Ariel Sharon, é um general. “E ele tem uma visão de general sobre a situação. Sharon pensa que tem um inimigo e que precisa derrotá-lo”. A morte de Yasser Arafat ganha um componente político de peso se considerado que Israel rompeu as negociações com os palestinos justificando que não iria mais negociar com uma pessoa que personificava o terrorismo.

“Quem perde o referencial hoje com a morte de Arafat são os Estados Unidos e Israel, que alegavam que não reabririam as negociações com um terrorista. E hoje esse suposto terrorista não existe mais. Com certeza, terá que se abrir um canal de negociação”, opina o médico Bashir Mussa Gazi, filho de palestinos e representante na OLP em São Paulo.

Na análise dele, o Estado da Palestina sempre existiu. “São mais de 2 mil anos de história. A Palestina deixou de existir territorialmente por determinação da ONU. Dentro dos nossos corações palestinos, nossa pátria sempre existiu. Honestamente, quero acreditar que há sim possibilidade de um acordo de paz real”, acredita.

A mesma previsão tem o presidente do Clube Monte Líbano de Bauru, Kalim Massad, libanês que reside há 40 anos no Brasil. “Temos esperança de que uma turma nova vai assumir a Autoridade Palestina. Não se pode desistir daquilo que está traçado, ou seja, que os palestinos tenham de volta a sua terra. É possível a convivência entre dois Estados independentes. O meio pacífico é o único jeito de conciliar a situação”, afirma.

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Descendente de judeus defende Estado palestino

“Todo povo tem que ter seu território”. A opinião é de Marcos Litvac, filho de pais judeus, que defende para já, mas de maneira pacífica, a criação do Estado da Palestina. Contrariando a versão do povo do qual descende, Litvac vê nos palestinos boa vontade para o estabelecimento de um armistício que possa render a viabilização de uma pátria para os palestinos.

“O maior problema dessa situação é o primeiro-ministro israelense Ariel Sharon. Ele é radical em algumas atitudes porque é ex-militar. No meu entender, os palestinos vão continuar com boa vontade para continuar o processo de pacificação. Vai depender muito da outra parte (judeus). Quando uma delas não está disposta a ceder, não se chega a nada”, afirma.

Litvac elogia a trajetória de vida de Yasser Arafat, que se doou para defender a causa palestina. “Foi um grande líder político e pacificador”, opina. “Espero que quem for assumir o lugar de Arafat não seja um radical. O que mais gostaria é de ver esse lugar do planeta em paz”, comenta.

O descendente de judeus diz que a guerra travada entre Israel e os palestinos é injusta. “É uma desigualdade muito grande. Não se justifica o que está acontecendo lá. A melhor saída é sentar e conversar. No meu entendimento, há muito interesse comercial no conflito, principalmente o da indústria bélica. É por isso que o interesse de pacificação está mais remoto”, finaliza.

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