Tribuna do Leitor

Discriminação dos inativos


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O velho boi-de-guia de boiada ganjenta fora vendido. Pinheiro de chifres, couro marcado por profundas escaras, sinais de ferrão, marcas indeléveis de canzis, cambões, brochas e pesadas cangas marcando-lhe o pescoço. Velho, muito velho o boi-de-carro.

Agora, sujeito à soga, é jungido ao velho esteio de aroeira, num canto do curral. O açougueiro acerta o fio da faca em luzidia chaira. E desenha-se um silêncio então. Ouve-se apenas o apelo do candeeiro que chama a atenção do meu avô João Theodoro:

- Espia, seo Major: o Soberbo está chorando...

Viu-se: dos olhos cansados do boi escorria um líquido grosso, pegajoso, contagotando sobre a terra batida do curral.

Um vinco de preocupação desenha-se então na face do meu avô. Homem muito sério, para quem a palavra muito valia, assume uma atitude inusitada. Rompera, ali, o compromisso com o açougueiro. Que escolhesse dois animais por melhor que fossem e deixassem na fazenda o velho boi, que a partir de então gozaria os privilégios de carreiro alforriado, livre e solto no melhor pasto da fazenda.

Por incrível que pareça, tal fato tem muito a ver com notícia veiculada no Jornal da Cidade do tedioso 10 de novembro. Manchete: Prefeitura vai pagar abono de R$3.000 a professor e diretor. Bem sei da satisfação do Magistério. Mesmo porque tal abono é muito superior aos vencimentos dos abnegados educadores.

Mas... No segundo parágrafo: “O abono destinado somente aos trabalhadores da ativa” e um ilustre assessor técnico da Secretaria Municipal da Educação explica que parte do dinheiro do Fundef só pode ser gasto com salário e capacitação dos professores. Sua Senhoria fala-nos da origem, todavia não justifica o destino deste dinheiro. Sabe-se: os professores da ativa são mais jovens do que os inativos. Há solteiros. Há casados com filhos; alguns com netos. Os inativos, não têm voz. E não têm vez! Mas têm filhos; têm netos; têm bisnetos, têm tudo isso, só lhes falta ter direitos!

A prefeitura de Bauru aprendeu a lição. E como aprendeu! No Estado de São Paulo, Sua Excelência o governador, bom discípulo de Mário Covas, sabe fazer a lição de casa: inativo não trabalha; se não trabalha, não tem direito. E o aprendizado foi mais longe, chegou a Brasília, que pretendeu sujeitar ao pagamento da Providência todos os aposentados do Brasil. E não me perguntem por quê.

Professores aposentados de Bauru: não lastimem! O Natal de cada um de vocês será igual ao de 2004, 2005, 200... Como vocês, sou professor aposentado do Estado. E sinto-me feliz. Tenho tranqüila a consciência. Não sou autor de lei discriminatória.

Alvaro B. Pontes - RG 2.477.567

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