As idéias republicanas reapareceram com maior força no Brasil após 1870, demonstrando a divisão na classe senhorial: fazendeiros dependentes do Estado Monárquico e da economia primário-exportadora escravista versus fazendeiros “progressistas”, representantes de áreas primário-exportadoras (café), que introduziam o trabalho livre e desejavam maior espaço político dentro do Estado.
A partir de 1850 os capitais ingleses, do extinto tráfico negreiro e da lavoura cafeeira, dinamizaram a economia brasileira. A Lei de Terra, a imigração e o processo abolicionista serviram também para minar os interesses do latifúndio tradicional. Assim, com o fim da escravidão, em 1888, o modelo político imperial esgotava-se sem o apoio dos senhores escravistas, dos militares e da Igreja, mas permanecia o modelo econômico monocultor em latifúndios exportadores. Do ponto de vista ideológico, o positivismo ajudou a combater a Monarquia: o país vivia uma fase de “progresso econômico”, de modernização e a República Federativa representava o ideal de “ordem e progresso” para toda a sociedade. Exemplos de ilusões da época, as idéias de industrialização, progresso e eleições atraíam setores do Exército, intelectuais, classe média e as populações urbanas. Estes grupos mais os republicanos e os ligados às atividades comercial e industrial representavam interesses conflitantes que não se dissiparam com a República. Esta, aliás, aconteceu por um golpe onde se observa a união do Exército e setores agrários capitalistas com as camadas médias urbanas, e chegou ordeira e pacífica, sem participação popular, bem ao gosto dos fazendeiros que assumem sua dianteira.
A República foi possível a partir do rompimento dentro da classe dominante, mas não resultou numa mudança estrutural do país, não se concretizou como um estágio superior de bem-estar e progresso como muitos pensavam, e esse caráter continuísta admitiria ainda outras rupturas ao longo dos seus 115 anos. A República construída conservou muitas das características ou problemas existentes antes da Proclamação, em 15 de novembro de 1889, gerando crises, reconstruções e decisões nem sempre acertadas do ponto de vista do que seria o bem comum, colocando o Estado a serviço de tantos outros interesses que não o público.
Em 2004, a República brasileira tem inúmeros desafios. Mas, o que é a República? Uma forma de governo, um país. E quem lhe dá forma e vida? Nós, brasileiros. “Ordem e progresso”? Qual ordem, para que e para quem? São inúmeras as perguntas e respostas, além de centenários os problemas, mas o caminho da participação popular, do exercício da cidadania, da inclusão social e econômica, representa a melhor opção para a democratização da República.
A autora, Rosane Pimentel, é professora bauruense, especialista em História do Ensino Fundamental e Médio