Política

Política externa não muda com Bush

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

Mesmo com a torcida internacional para a vitória do candidato do Partido Democrata, John Kerry, nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, o povo americano decidiu, no início deste mês, pela manutenção de George W. Bush na Casa Branca por mais quatro anos. Medo do terrorismo ou promessa de estabilidade e proteção à economia interna, os motivos para a vitória já não importam. Para especialistas consultados pelo JC, a política externa dos EUA não deve sofrer grandes mudanças e o momento é propício para o Brasil ampliar o diálogo e buscar acordos com o país.

Daniel Freire e Almeida, advogado e especialista em direito internacional e política externa dos EUA, relembra que após os atentados ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, a política externa americana sofreu mudanças e tornou-se mais agressiva, justamente para buscar a preservação do mercado interno. “Dois pontos foram chave (para a vitória de Bush) na última eleição: a guerra contra o terror, que vai continuar baseando as relações dos EUA com o resto do mundo, e o bem-estar da população americana, no que diz respeito à economia interna. Bush teve a aprovação de sua política externa, e infelizmente, isso significa que o estilo dessa política não deve ser alterado”, observa.

O economista e analista econômico Reinaldo Cafeo aponta que Bush, em seu primeiro mandato, deu destaque à proteção interna do mercado americano. A medida fechou o país à entrada de mercadorias e produtos importados, especialmente originários de nações em desenvolvimento, como foi o caso do aço brasileiro.

“Ao mesmo tempo, Bush incentivou posicionamentos bilaterais. Ele fecha sua economia para o resto do mundo quando é conveniente, mas tem pontos de fidelidade, como fez com o México no Nafta. A América do Norte teve um relacionamento comercial muito forte, tanto é verdade que o México tem risco-país de 200 pontos, contra quase 500 do Brasil. E quando há fidelização, há uma certa proteção”, comenta.

De acordo com o historiador político Maximiliano Martin Vicente, a eleição de Kerry teria conseqüências mais negativas para o Brasil. Ele afirma que os grupos que apoiavam o candidato, ao lado do Partido Democrata, primavam unicamente pela defesa dos interesses americanos, e comercialmente, as relações com países em desenvolvimento não seriam incentivadas.

“A vitória de Bush não é nada boa, mas economicamente, creio que é mais fácil negociar com o atual governo do que seria com a equipe de Kerry, porque a proposta dele era de controlar o país através das importações. O governo de Bush tem uma política autoritária, mas o Brasil pode encontrar caminhos para derrubar essa barreira”, diz.

Maurício Gonçalves de Moura, que é diretor comercial da Estação Aduaneira Interior (Eadi-Bauru), concorda que o Partido Republicano se mostra mais favorável ao comércio internacional. Ele argumenta que a reeleição de Bush e a proximidade iniciada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva podem ampliar o diálogo e mostrar-se comercialmente favorável ao Brasil.

“Já temos obtido bons resultados nas exportações, muito embora tivemos problemas com a imposição de certas barreiras, decorrentes de um posicionamento mais agressivo dos EUA em relação ao terrorismo. Isso obrigou os exportadores brasileiros a uma maior adequação. Mas se soubermos aproveitar essa oportunidade, o Brasil terá os melhores resultados já obtidos”, vislumbra Moura.

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