Desde que colocou em prática uma resolução que impõe a cobrança de 45 metros cúbicos de água (45 mil litros) a consumidores em cujos imóveis não for possível fazer a leitura, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) provocou uma verdadeira corrida de usuários ao seu balcão de reclamações.
Apenas nos últimos três meses, segundo levantamento do próprio DAE, foram emitidas 10.058 contas com a “multa” dos 45 metros cúbicos, o que representa R$ 97,14 para consumidores residenciais e R$ 246,19 para a tarifa comercial. Nestes números pode haver casos de reincidência.
O detalhe preocupante deste levantamento é que a maioria dos usuários surpreendidos com a cobrança teve de pagá-la ou então ficou em débito com o serviço. Segundo o estudo, neste período de três meses apenas 42,9% dos consumidores (4.315) conseguiram renegociar a dívida, pagando somente o que realmente consumiu de água.
Ontem, a sala de espera pelo atendimento no DAE estava completamente lotada, com a fila de consumidores se estendendo até a calçada. A autarquia não divulgou o percentual de consumidores que reclamavam da “multa” do hidrômetro, mas a reportagem conversou com alguns deles durante a tarde.
Um caso clássico de consumidor-alvo da nova medida é o da auxiliar de cobrança Ana Caroline Moraes Menegheti, 26 anos, moradora do Núcleo Presidente Geisel há seis anos. Sua casa foi construída com o hidrômetro dentro do quintal, sem acesso visual para o leiturista. Como ela e o marido trabalham o dia todo, a leitura do consumo fica impossibilitada.
Com duas contas no valor R$ 97,14, Menegheti foi ontem ao DAE para tentar renegociar sua dívida. Mesmo confiante num acordo, já que trazia em mãos o papel com a leitura atual de seu hidrômetro, a auxiliar de cobrança não vê saída para a situação. “Eu e meu marido precisamos trabalhar e, no momento, não temos condições financeiras de fazer a reforma para tornar o hidrômetro visível”, diz. Ela reclama ainda do atendimento telefônico do DAE. “Eu liguei para informar a leitura, mas mesmo assim recebi estas duas contas (de R$ 97,14)”, relata Menegheti.
Este não é o caso da dona de casa Tatiana Ocon, 26 anos, moradora do Bauru 1. Ela garante que seu hidrômetro é visível da calçada e que, por isso, não entende por que recebeu a conta com a “multa”. A assessoria de imprensa do DAE explica que, neste caso, a conta será refeita com base na leitura que o consumidor apresentou, com a emissão de um novo boleto com o valor corrigido.
O DAE, porém, diz que precisará “investigar” por que a leitura não foi feita. Segundo a assessoria de imprensa, muitas vezes, mesmo com o aparelho visível da calçada, consumidores o deixam escondido por vasos, com sua tampa fechada e até com cães presos ao cano, situações que impedem a leitura.
A assessoria de imprensa do DAE ressalta que a cobrança com base na resolução só é feita após a terceira tentativa frustrada de leitura. Mesmo assim, o DAE diz que garante ao consumidor em cujo hidrômetro não foi feita a leitura a possibilidade de passá-la pelo telefone (3235-6159 e 3235-6160) ou pessoalmente na sede da autarquia no prazo de três dias. Caso contrário, na próxima conta será cobrado o consumo de 45 mil litros de água.
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Facilitar a leitura
O objetivo da cobrança de 45 metros cúbicos em casos de leitura impossibilitada, diz o DAE, é forçar os consumidores a conservar o hidrômetro e criar meios que facilitem o trabalho de leitura. Em muitos casos, segundo a autarquia, o aparelho está instalado em locais inacessíveis ao leiturista ou escondido atrás de plantas e entulho. Além disso, o aparelho pode ficar exposto ao sol e à chuva, o que reduz sua vida útil.
Em junho, segundo dados do próprio DAE, das 110 mil ligações de água da cidade, em 15% delas era impossível se fazer a leitura por diversos motivos.
A autarquia, segundo a assessoria de imprensa, acredita que após a adoção da medida este percentual tenha caído, mas ainda não sabe estimar em quanto. Também não informou se aumentou o número de hidrômetros trocados - o DAE não os comercializa, mas precisa aferir todo novo aparelho antes de ser instalado.