A situação e a oposição no Brasil vivem um impasse monumental. Ambos vão ter que construir projetos alternativos para o País. Projetos consistentes e inovadores que abram caminho para as eleições de 2006. Uma coisa é falar para ganhar o poder. Outra coisa é tocar a administração pública. Milhas separam a aventura da imaginação da dura realidade da gestão competente.
Tivemos grandes realizadores e grandes construtores de projetos. O maior modelo, nunca igualado, foi Juscelino Kubitschek. Modelo extraordinário e mais antigo: Getulio Vargas. “Não foi o sorriso do velhinho, a sua simpatia, a ajuda do DIP calando a boca da imprensa durante o Estado Novo, que sustentaram a popularidade de Vargas”, lembra Villas-Boas Corrêa. Homem de poucas palavras e muita ação, tinha o hábito de “serões solitários ou com apenas um assessor, que varavam a noite e engoliam madrugadas. Nenhum processo dormia na gaveta. O governo andava cutucado pelo chefe atento”. Exemplos históricos de governantes. Nem sempre bem-sucedidos...
O governo Lula da Silva encontra-se cindido em duas vertentes. Do lado da encosta mais visível para as elites nacionais e internacionais, a gestão eficiente e promissora da política econômica. Palocci e Meireles reproduzem a política econômica herdada da ortodoxia de Malan. Não adianta querer marcar diferenças. Do outro lado da encosta, escondida pelos marqueteiros, a ineficiência da gestão administrativa. Não adianta petista querer insistir que novos quadros levam tempo para aprender. Dois terços do governo foram para o beleléu. O último ano é o ano da sucessão.
No alto do poder, Zé Dirceu e Zé Genoíno observam os dois lados da encosta. Zé Dirceu, às voltas com a base parlamentar do governo e com o trote trôpego dos escândalos administrativos. Zé Genoíno, às voltas com a missão de pegar o touro à unha. Reprimir a militância cada vez mais irada. A “estrela partida ao meio”, não é mais apenas metáfora melancólica. Vem chumbo da base parlamentar. Vem chumbo grosso da militância. As eleições municipais dispararam alarmes pelo País afora.
Marta e Zé Serra deixaram pistas visíveis por onde situação e oposição podem vir a caminhar. Marta quis mostrar as realizações sociais dos petistas como contraponto do governo Lula da Silva. Desgastou-se nas classes médias, mas foi bem votada na periferia. Entre a população mais carente deitou e rolou o assistencialismo. Elaborou Plano Diretor Estratégico, onde pretendia dar ênfase ao transporte público e à ampliação dos programas sociais. Deu ênfase à cultura “para que São Paulo seja uma cidade marcada pela efervescência de idéias, pelo debate, pelo experimentalismo cultural”.
Zé Serra privilegiou a forma de governar. Os cinco “P”s sintetizam a ênfase na gestão competente: planejamento, contra iniciativas de cunho marqueteiro; prioridades: saúde, segurança, educação e habitação; parcerias com governo estadual e federal e iniciativa privada: parcimônia, não abusar do dinheiro público; primeira hora, fazer funcionar direito o que já existe desde o começo do governo.
As estratégias são ainda incertas. As eleições municipais deram vitória à oposição. José Simão lembra o comentário de amiga: “Se eu tiver que agüentar por quatro anos o Serra falando em planejamento, prioridade e terra de oportunidades, eu me mando daqui e não pago mais IPTU”. Não vai ser fácil. Agüentar o papo furado de Lula e o lenga-lenga de governar bem...
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP