O saudoso escritor Fernando Sabino, nascido nas Minas Gerais, aquele que “nasceu homem e morreu menino”, em uma de suas memoráveis crônicas, chamada “Conversinha Mineira”, conta a história do dono de um café que não consegue responder nada diretamente, especialmente quando o assunto envereda para a seara política:
- E o prefeito?
- Que é que tem o prefeito?
- Que tal o prefeito daqui?
- O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
- Que é que falam dele?
- Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é prefeito.
- Você, certamente, já tem candidato.
- Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
- Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
- Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...
Pois foi em Belo Horizonte em o partido do presidente Lula alcançou uma das suas mais expressivas vitórias, onde o atual prefeito, Fernando Pimentel, foi reconduzido ao cargo com cerca de 68% dos votos. Outros administradores públicos municipais também foram reconhecidos pela população, como César Maia no Rio de Janeiro, Marcelo Deda em Aracaju e João Paulo em Recife, entre outros, sendo todos reeleitos no primeiro turno.
Além das Capitais citadas, o Interior mostrou também a recondução de inúmeros prefeitos. O instituto da reeleição parece realmente já começar a fazer parte da cultura política brasileira. Isto pode ser constatado pelos números, pois apesar do total de prefeitos reeleitos ter diminuído em relação à última eleição, de 2.169 em 2000 para 1.538 em 2004, o percentual de prefeitos reconduzidos que tentaram a reeleição subiu de 39,4% em 2000 para 56,3% em 2004. Esse crescimento proporcional é resultado também da lei eleitoral, uma vez que, em 2000, todos poderiam tentar a reeleição. Já em 2004 este número foi reduzido, pois alguns prefeitos terminavam seu segundo mandato.
O conceito de eleições municipais em meio aos mandatos executivos e legislativos estaduais e federais adquiriu tamanha importância, que muitos consideram este período o início da arquitetura política que desenhará o quadro sucessório presidencial dali a dois anos. A correlação de forças entre os partidos começa a tomar forma. O ano de 2004 serviu para evidenciar a polarização entre PSDB e PT, que se consolidaram como os mais importantes partidos políticos brasileiros. Enquanto os tucanos somaram 15,7 milhões de votos, os petistas alcançaram a marca de 16,3 milhões.
As eleições municipais serão responsáveis, acima de tudo, por operar mudanças na correlação de forças políticas que sustentam a base governista em Brasília. O Palácio do Planalto tende, a partir de agora, a rever estratégias, acomodar aliados, acenar para novas alianças e possíveis adesões. Entretanto, fica uma certeza. Todas as articulações políticas que se iniciam precisarão de uma dose da perspicácia e sutileza da boa conversa mineira, assim como o dono do Café da crônica de Sabino.
O autor, Márcio C. Coimbra, é sócio da Governale - Relações Governamentais, advogado e professor de Direito Constitucional e Internacional do UniCEUB