Cultura

Artigo: Um pintor das águas


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Há 82 anos atrás, um menino, de apenas 8 anos começara a se interessar pelas representações visuais que apareciam nos quadros que via, e que, naquela época lhe transportaram a um mundo onde se confundiam agradavelmente a realidade e a fantasia.

Foram tão surpreendentes e estimulantes para ele aquelas formas de representação contidas nos quadros com seus padrões e sua estética realista, que, em boa medida, despertaram-lhe uma vontade essencial para o fazer e o criar. Um fazer que lhe traria uma perspectiva única e sensível para traduzir a realidade criando a sua própria, em traços e cores ao longo de sua vida.

Mas afinal, o que teriam esses quadros de tão especial e extraordinário para terem fascinado o menino? Que poder é esse, que consegue conter o espaço-tempo num único plano? O poder de representar, insinuar e reduzir a realidade visual a seus fragmentos mais estimulantes? O poder de comunicar com traços e cores aquilo que nos comove e sensibiliza?

O poder de congelar num único instante o deleite de observar a natureza, sua harmonia, seu equilíbrio, em fim, seu encanto quase ideal, quase onírico? O poder de recriar a paisagem até a exaustão numa homenagem explicita ao Criador? O poder de criar coisas que não são tais, mas a sua representação? Quem sabe, de tudo isso um pouco?

Embora tenha excursionado timidamente pelas figuras, até as religiosas e as naturezas mortas, foi nas paisagens, mais precisamente, nas beiras dos rios, onde nosso pintor se deteve e construiu seu porto seguro para descarregar o melhor de si. Dos elementos representados, a água inundou seus quadros, vertendo uma habilidade singular e uma competência artística consolidada com seus meios.

Seus contemporâneos sabiam e reconheciam sua habilidade. Certo dia o pintor Rodolfo Hayzok me dizia que são poucos aqueles que conseguem pintar a água. Baccan consegue como ninguém! Ele é o pintor das águas em Bauru. Como um pintor pouco afeto às problemáticas intelectuais da arte, não abdicou de suas temáticas bucólicas, até porque como ele mesmo manifestou, nunca fez arte para os críticos ou os intelectuais e sim para o povo.

A exploração persistente e monótona da beira do rio, com a sensibilidade dos sentidos, foi sempre sua maior conquista. A água com seus reflexos, caudal da vida, fonte torrencial que filtra a luz na transparência do seu próprio corpo se vê na obra de Baccan, traduzida em elementos simples, traços e pinceladas de cor, texturas que refletem sobre a superfície e surpreendem.

Passaram-se 90 na vida daquele menino travesso que continua ainda irrequieto e fascinado a fazer arte.

O autor, José dos Santos Laranjeira, é artista multimídia, professor de artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em artes pela Universidade de Campinas (Unicamp) e doutorando em artes pela Universidade de Barcelona.

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