A imagem da maioria das escolas estaduais (EE) de Bauru chega a ser paradoxal: as cores das paredes pintadas há poucos meses e a criatividade dos grafites nos muros concorrem com as pichações e os atos de vandalismo. Na opinião de professores, estudantes e representantes da comunidade ouvidos pelo JC, esse é justamente o pior inimigo da conservação dos prédios, já que os estabelecimentos de ensino vêm, constantemente, recebendo verbas para sua manutenção.
As pichações realizadas com tinta em praticamente toda a extensão dos prédios, do térreo até a parede mais alta, apresentam palavras de ordem, nomes de grupos ou o codinome dos pichadores. Ao contrário dos grafites, são promovidos apenas para marcar território, chocar e contrariar a direção da escola, os professores, a comunidade e os próprios alunos.
Além das pichações, não é difícil encontrar vidros quebrados, grades e alambrados retorcidos e até mesmo canteiros e árvores depredadas. No interior das escolas, o principal alvo são os banheiros, que recebem novas inscrições nas portas e paredes horas depois de receberem pintura nova.
Na opinião dos estudantes Fabrício Fusa, 19 anos, e Leandro Souza, 17 anos, alunos do 3.º ano do ensino médio da EE Rodrigues de Abreu, no Centro da cidade, as escolas não são malcuidadas. “São os próprios alunos das escolas que estragam o prédio. É uma falta de consciência. As pessoas devem pensar que, já que a escola é pública, elas não pagam e não têm porque cuidar”, analisa Fusa.
“A pichação e o vandalismo são os alunos que fazem. A falta de higiene e o desrespeito no banheiro também é terrível, o pessoal urina no chão e nos ralos e deixa o banheiro numa situação ruim”, completa Souza.
Falta conscientização
Diego Ferreira, 13 anos, aluno da 7.ª série do ensino fundamental no Rodrigues de Abreu, aponta que uma campanha de conscientização para a conservação das escolas poderia ser eficiente. “Se são os alunos que não colaboram com o cuidado dos prédios, poderia haver punições para os que fazem algo errado. Mas o ideal seria se as pessoas se conscientizassem da importância de cuidar da escola onde estudam ou da escola de seu bairro”, argumenta.
Estudantes do ensino fundamental e do ensino médio da EE Prof. João Maringoni, que preferiram não ter seus nomes divulgados, afirmam que o prédio atualmente está em melhores condições do que em anos anteriores, mas a situação ainda seria longe das condições ideais. “As salas foram pintadas, mas ainda não estão perfeitas. Algumas têm infiltração, aquelas manchas de bolor no teto e nas paredes”, diz uma aluna do ensino fundamental.
“Quando tem carteiras quebradas, a escola conserta logo, isso não é problema. O pior realmente é o vandalismo, as pichações, a bagunça que o pessoal faz no banheiro. Tudo isso deixa a escola desagradável para a gente que vem estudar, fica um local feio, dá até vergonha”, ressalta um aluno do 1.º ano do ensino médio.
Um pai de dois filhos matriculados na EE Ernesto Monte, no Centro, e que também preferiu não ser identificado, elogia a manutenção das salas, corredores e áreas comuns das escolas, mas faz ressalvas. “Meus filhos estudavam em outra escola e eu vi como a situação estava precária até o ano passado. Agora, percebo que as escolas em geral passaram por uma manutenção e pintura, mas a Ernesto Monte ainda está vergonhosa. Não culpo a escola, que tenta fazer um trabalho bom com os alunos, mas o prédio parece até abandonado para quem não conhece, é uma coisa decadente”, observa.
A dirigente regional de Ensino, Vera Nilce Ludke Jarussi, reitera que os prédios das escolas estaduais não estão em condições precárias e que a maioria passou por reforma, pintura e manutenção nos últimos meses. “A deterioração não é uma realidade nas escolas de Bauru. Elas receberam recursos no início do ano e ainda recebem verbas trimestrais para manutenção através da Fundação de Desenvolvimento da Educação (FDE), que é administrado pelas Associações de Pais e Mestres”, afirma.
De acordo com ela, as escolas ainda devem receber mais de R$ 344 mil do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) nos próximos dias. O recurso, que será dividido de acordo com o número de alunos dos estabelecimentos de ensino, pode ser destinado também à pintura e manutenção.
“Existem exceções, mas a maior parte das pichações é nas paredes externas. Uma saída para evitar esse tipo de vandalismo são os projetos de grafitagem que algumas escolas estão adotando. A EE Ada Cariane Avalone, por exemplo, já fez um concurso e foram escolhidos os melhores desenhos que serão colocados nos muros. Esse tipo de atitude envolve toda a escola, a comunidade, os comerciantes, e dá um fim ao vandalismo”, finaliza.