Comemorou-se ontem, 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra. Esta data foi escolhida pela comunidade negra brasileira em oposição ao 13 de maio
de 1988, quando, por um “gesto de bondade”, a princesa Isabel aboliu a escravidão. Correta a substituição das datas, pois, com a abolição, nada mudou na vida do negro brasileiro, que, “livre”, analfabeto, sem um projeto que o integrasse economicamente à nação, passa a ser pária pela sua cor, marca indelével em uma sociedade até hoje racista e intolerante.
Com o 20 de novembro, vêm-nos à lembrança a morte do último rei do Quilombo mais famoso do Brasil, mas não o único - o Quilombo de Palmares, na serra da
Barriga, em Alagoas - no século 17, 1695, fazendo parte da Capitania de Pernambuco.
Viviam em intenso comércio com os brancos da região, aceitavam no Quilombo a
diversidade étnica como índios, mestiços e até brancos que estivessem em apuros com as autoridades portuguesas. Tiveram coragem de montar uma sociedade paralela à sociedade oficial existente e, ali, naquela experiência, lançaram raízes de hibridismo e
miscigenação como é o nosso Brasil de hoje.
Zumbi, seu último rei, talvez tenha sido educado por um religioso até a idade de 15 anos, sabendo ler e escrever, além de ter noções de latim e quem sabe até grego. Opta por integrar o maior Quilombo brasileiro, na verdade uma confederação quilombola, com 11 comunidades e mais de 30 mil pessoas, quase tão populosa como a Capital do Governo Geral no Brasil, a cidade de Salvador.
Não tem certeza das etnias africanas que compunham esse mosaico social, mas
trocavam experiências culturais entre si, percebendo que a África e a sua nova realidade americana eram plural e que essa vida só teria sentido na troca e no aprendizado.
Essa experiência ímpar, de troca cultural e hibridização, é que deve ser a
nossa herança: a vontade de aprender com o outrol, trocando emoções, cultura, arte, música, dança, religião e sobrevivência. A África que está em nós, assim como a América indígena, clama por um espaço digno na nossa sociedade, na nossa educação, para mostrar que o negro e sua cultura não são os amaldiçoados filhos de Khan, mas, em sua diáspora, construíram civilizações que, reconhecidas, serão o sal da terra da nova humanidade que queremos construir: mais fraterna, plural, equilibrada, onde todos os homens sejam a medida de todas as coisas, pois, afinal de contas, Zumbi somos todos nós. (O autor, Fábio Paride Pallotta, é professor de história do Colégio Fênix, graduado em direito pela ITE, especialista em educação escolar e professor do ensino médio e pré-vestibular)