Itapuí - Pouco mais de duas semanas. Esse foi o tempo que João Joelson Ribeiro passou consultando em Itapuí (44 quilômetros a leste de Bauru) até a polícia descobrir que ele exercia a profissão ilegalmente. A suposta farsa foi desvendada ontem de manhã, com a prisão do acusado.
Ele atendia no Posto de Saúde da cidade com o nome de Ricardo Sornas - médico que atende em Marília e que descobriu a fraude enquanto cuidava de seu imposto de renda. Foi aí que ele ficou sabendo que existia um outro médico, com o mesmo nome, atendendo em Mato Grosso.
Na delegacia, foi descoberto ainda que o acusado tinha contra ele um mandado de prisão por receptação. Ribeiro foi contratado pela prefeitura para trabalhar durante três meses no Posto de Saúde da cidade.
Aparentemente estava tudo em ordem com a documentação do suposto médico. De acordo com o Departamento Pessoal da prefeitura, ele apresentou certidão de nascimento, CIC, RG, carta de referência e carteira de médico devidamente homologada pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) do Estado de São Paulo.
De acordo com o delegado Antônio Ângelo Meneguel, realmente não tinha como desconfiar da documentação. Só mesmo uma consulta mais detalhada ao CRM seria capaz de descobrir que o verdadeiro médico que atende pelo nome de Ricardo atende em Marília e não em Itapuí.
Ribeiro será indiciado criminalmente pelo uso de documentos falsos (reclusão de dois a seis anos) e por exercício ilegal da profissão (detenção de seis meses a dois anos). O falso médico foi encaminhado à cadeia pública de Barra Bonita, onde ficará à disposição da Justiça.
Segundo o delegado, assim que a polícia recebeu a denúncia dos parentes do médico de Marília houve um deslocamento até o Posto de Saúde onde Ribeiro estava trabalhando.
Assim que um paciente saiu do consultório, os policiais entraram e o delegado solicitou que ele fosse preso. Mesmo detido, o acusado continuou afirmando que era médico e exibiu os documentos. Na delegacia, no entanto, ele teria admitido a farsa.
Segundo Meneguel, até ontem, não havia registro de nenhum paciente que teria sido prejudicado com a medicação prescrita pelo médico falso.
Uma de suas pacientes foi Maria Helena Miranda. Ela contou ao JC que foi atendida logo no primeiro dia de trabalho do “doutor Ricardo” no Posto de Saúde. Na ocasião, ele solicitou um exame de sangue antes de iniciar um tratamento para tentar curar as freqüentes “tonturas” que a paciente dizia estar sentindo.
O exame seria levado ontem para ele examinar, mas não deu tempo. “Quando uma amiga me disse que ele tinha sido preso porque não era médico, eu fiquei assustada”, comenta.
Diferente dos outros
Mas no dia da consulta, Maria Helena conta que gostou do “novo médico” e de seu atendimento. “Ele foi muito atencioso, perguntou bastante coisa. Foi diferente dos outros médicos que ficam escrevendo (o receituário) enquanto você conta o que está sentindo.”
A paciente revela ainda que o médico teria lhe dito que tinha parentes em Bauru com o mesmo sobrenome dela e que ele próprio seria de Bauru.
Segundo informações do Departamento Pessoal a apresentação da carteira de médico, com identificação do CRM, é o suficiente para a contratação de médicos. Não existe uma consulta prévia sobre a veracidade ou não do documento. É a primeira vez que um médico falso é descoberto na cidade.
De acordo com o conselheiro do CRM, em Bauru, Carlos Alberto Monte Gobbo, a prática não é corriqueira na região. Ele lembrou de apenas um caso parecido quando uma pessoa descobriu que tinha o mesmo nome de um médico e decidiu se passar por ele.
Nesses casos, Gobbo conta que não tem como o CRM atuar porque os acusados não são médicos. Ele recomenda às prefeitura que investiguem a vida dos médicos que vão contratar e procurem conversar com os hospitais onde trabalharam.
Segundo ele, caso a saúde de algum paciente seja prejudicada pela ação de um médico falso, a responsabilidade pode recair sobre o empregador, que deu aval para sua atuação dentro do município.