Rural

Agronegócio pode ter 'apagão' em 2005

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

Com todos os alertas vindo, inclusive do ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, sabe-se que o agronegócio brasileiro já entrou em um ciclo de queda. Rodrigues prevê para 2005 um cenário conturbado para as principais commodities agrícolas. “A expectativa hoje, em relação ao ano que vem, é mais ou menos de uma redução dos preços das commodities anuais, caso de soja, milho, arroz, trigo e algodão, mas não muito forte, dependendo de como vão agir os mercados”, avaliou o ministro anteontem, em entrevista coletiva ao chegar ao Hotel Transamérica, em São Paulo, para participar do 24.º Encontro Nacional de Comércio Exterior (Enaex).

Rodrigues desconversou ao ser questionado a respeito do volume de perdas financeiras dos agricultores e preferiu aguardar que os mercados se manifestem a partir de janeiro e fevereiro, meses em que o volume da safra brasileira de 2004 ficará caracterizado, junto com a da Argentina, Paraguai e Uruguai.

O próprio ministro da Agricultura, que tem investimentos no setor de agronegócio, é “vítima” da situação ruim. O presidente do Sindicato Rural de Bauru e Região e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, comenta que em uma reunião recente em São Paulo, Roberto Rodrigues não teve pudor em revelar sua decisão de não plantar soja em áreas da região norte. “Ele disse que tem grandes plantações de soja no norte. Os filhos o chamaram e disseram: ‘Pai, dá uma olhada nisso aqui (avaliação negativa dos preços do produto). Nós não vamos plantar nada’. Você imagina que para um ministro da Agricultura... Quer dizer, ele vai plantar alguma coisa. Mas vai plantar de acordo com o que ele sabe que vai dar para tocar”, relatou Lima Verde.

De acordo com o ministro, em relação a 2003, os custos de produção aumentaram 20%, em média, devido às altas de preços do petróleo e do aço no mercado internacional. Ao desenhar um ambiente desfavorável para a agroindústria nacional, Rodrigues diz que há sinais positivos para os mercados de açúcar e etanol, biodiesel, café e suco de laranja. “O conjunto do agronegócio talvez não tenha perdas de renda significativas, mas haverá perda significativa de renda líquida para o setor, na medida em que os custos subiram para todos”, avaliou.

Debruçados sobre projeções de números, os analistas dão como certo que os próximos anos serão de retração para a atividade agroindustrial brasileira, num movimento inverso ao que se viu nos últimos três anos, quando a agroindústria impulsionou as exportações do País.

Lima Verde alerta que, com as dificuldades do setor, as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), em torno de 4,5% ao ano, caem para 1,5%. “Não podemos viver do sucesso passado. Houve de fato o período áureo para a agropecuária. Esse período não vai se repetir. Vamos estar no limite”, avaliou.

Ele se preocupa com um possível clima pessimista que iniba os investimentos no agronegócio, principalmente na região de Bauru. “Porque esses investimentos vão demorar dois ou três anos para surtir efeito”, complementou.

O nó do agronegócio é uma conjunção de fatores internos e externos e que afetam o setor produtivo agroindustrial nacional. Lima Verde responsabiliza o aumento exagerado dos custos, devido à elevação do dólar e do petróleo (muitos insumos derivam do petróleo).

Outro fator é que quase todos os preços dos produtos (commodities) sofreram uma baixa significativa. Destaque para a soja, que chegou a R$ 50,00 a saca e caiu para R$ 30,00. Produto ponta-de-lança das exportações nacionais, a soja enfrentará a concorrência de uma hiperssafra norte-americana. Milho e café também foram produtos que tiveram grande queda na cotação.

Lima Verde entende que o cenário para o agronegócio não é de otimismo, porém, o setor não pode se entregar ao desespero. No seu entendimento, a medida a ser adotada é ajustar as contas e rever as margens de lucratividade, “sempre com os pés na realidade”.

Ele garante que, daqui a seis meses, os produtores de arroz, soja, milho, entre outros, irão recorrer ao governo federal devido aos baixos preços de mercado. “Se ele (produtor) for muito eficiente ainda terá uma rentabilidade. Até o incompetente ganhou nos últimos dois anos. Conforme o produto, os preços se elevaram de uma tal forma... O camarada gastava R$ 18,00 para produzir e vendia por R$ 50,00. Mesmo que ele gastasse R$ 25,00, por incompetência, ainda ganhava o dobro” esclareceu.

Suplício

Em decorrência dessa queda do agronegócio, o produtor passará por dificuldades e deve retomar um antigo comportamento, ou seja, pedido de ampliação de prazos, atraso no pagamento de compromissos, solicitação de preço mínimo, entre outras salvaguardas. Lima Verde entende que o governo brasileiro se desacostumou com essa prática de socorro, graças ao período de “vacas gordas” nos últimos três anos. “Ele (governo) acha que éramos totalmente auto-suficientes. Alguns setores foram mesmo, outros não. O café se arrasta há quatro anos”, ressaltou.

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Efeitos

Para o boom do agronegócio, muitos produtores contraíram dívidas para a modernização e compra de maquinário e, nos próximos meses, começam a vencer as faturas.

As indústrias de implementos agrícolas registram neste mês uma queda de 50% a 55% nas vendas. O presidente do Sindicato Rural de Bauru e Região e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, cita como preocupante o vencimento dos financiamentos aos agricultores da linha de crédito Moderfrota. Com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Moderfrota é um programa que financia a compra de tratores e implementos agrícolas associados, colheitadeiras e equipamentos, e máquinas para preparo, secagem e beneficiamento.

Com a queda das commodities é natural o produtor reavaliar seu plano de plantio, afinal para que produzir correndo os riscos de não obter o preço mínimo. Entretanto, Lima Verde destaca que este mesmo produtor, que opta por plantar menos, tem uma estrutura que tem o seu custo embutido (empréstimos) no seu faturamento com a safra.

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