Um estudo realizado pela Credicard sobre as expectativas do setor para 2004 mostra que está crescendo a quantidade de pessoas com renda individual mensal entre R$ 200,00 e R$ 500,00 que utilizam cartão de crédito. Segundo a pesquisa, atualmente 20,6% dos cartões emitidos no País - cerca de 10,5 milhões - estão nas mãos desses consumidores. O comércio de Bauru confirma o cenário desenhado pelo estudo.
De acordo com o presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib) e vice-presidente da Associação dos Lojistas do Bauru Shopping Center (ALBSC), Cássio Carvalho, não há um levantamento específico sobre a utilização dos cartões de crédito, mas o dia-a-dia dos lojistas mostra que, ano a ano, mais consumidores de baixa renda vêm utilizando o “crédito de plástico”.
“Mesmo sem estatísticas oficiais, posso afirmar que vem crescendo bastante a utilização do cartão por pessoas com o perfil apontado pelo estudo. Para os comerciantes é uma venda segura, e as lojas que aceitam cartão de crédito sempre procuram incentivar as compras por meio desta modalidade de pagamento”, observa Carvalho.
O auxiliar administrativo Danilo Santos Silva, 23 anos, é um dos integrantes das estatísticas que mostram a disseminação do cartão de crédito entre pessoas com a faixa de renda apontada pelo estudo da Credicard. Ele ganha cerca de R$ 300,00 por mês e adquiriu um cartão há três meses.
“Eu decidi ter um cartão para poder fazer compras parceladas. Já fiz algumas aquisições no comércio e coloquei no cartão. Para as compras de Natal, também pretendo usá-lo. Sabendo usar, o cartão é uma boa ferramenta”, observa Silva.
Mesmo tendo um limite de uso no cartão - R$ 500,00 - maior do que a sua renda, ele garante ser muito rígido e controlado com as finanças. “Se você administrar o uso do cartão com cuidado e seriedade, não perde o controle”, arrisca.
O estudante universitário Tiago Francisco Dálio, 20 anos, recebe salário em torno de R$ 350,00 e adquiriu seu cartão de crédito há cerca de um mês, mas ainda não o utilizou. A decisão de ter um foi tomada em função de não possuir talão de cheque.
“Eu tenho só cartão de débito, mas com ele não dá para fazer compra parcelada. Então, optei pelo cartão de crédito, mas sei que não posso descuidar das datas de vencimento para não me enrolar nos juros. Vou procurar controlar tudo direitinho. Para as compras de Natal, vou dar preferência por pagar à vista para ter desconto. Se não tiver dinheiro, vou usar o cartão de crédito”, conta.
Altas taxas
Na opinião de Cássio Carvalho, se as taxas de administração cobradas das lojas pelas operadoras de cartão fossem menores, mais comerciantes iriam aderir à sua utilização. “Hoje essas taxas estão em torno de 3,5% a 4% para as lojas. É um custo alto que ainda faz com que muitos comerciantes não disponibilizem essa opção ao público consumidor.”
De acordo com Carvalho, na sua loja localizada no Calçadão de Bauru as vendas feitas com pagamento por cartão de crédito significam cerca de 40% do volume mensal. “Por ser uma modalidade segura para nós, estou facilitando as compras feitas no cartão oferecendo parcelamento em até seis vezes. Todos os lojistas facilitam.”
A analista de crédito de uma loja de jóias e semijóias no Centro de Bauru, Maria Elisa de Araújo, também confirma o crescimento da utilização dos cartões por parte de pessoas com renda inferior a R$ 500,00. “Aqui na loja, cerca de 30% das vendas são efetuadas com esta modalidade de pagamento. O forte da loja ainda é o crediário”, aponta.
Segundo o levantamento da Credicard, o volume de transações dos usuários com o perfil apontado pelo estudo deve chegar a R$ 6,6 bilhões neste ano, crescimento de 20,9% em relação a 2003. Em 1998, apenas 10% das pessoas de baixa renda possuíam cartão de crédito. Hoje, esse número já é de 25%, o que significa 6,6% do mercado brasileiro de cartão de crédito, estimado em R$ 100 bilhões.
____________________
Cuidados na utilização
O economista Wagner Ismanhoto alerta os usuários de cartão de crédito para as “armadilhas” em que podem cair pessoas das mais diversas faixas de rendimento se não souberem utilizá-lo da forma correta. A principal orientação é a de pagar a fatura do cartão até a data de vencimento. Após esse prazo, os juros que começam a incidir sobre o valor são em torno de 11% a 12% ao mês - somando cerca de 250% ao ano.
“O cartão deve ser usado com muita disciplina e as faturas devem ser pagas dentro do prazo de vencimento estipulado. Isso significa que o usuário deve evitar, de todas as formas, entrar no crédito rotativo do cartão, pois ele é terrível. Isso vira uma bola de neve que só aumenta a dívida, e conseqüentemente, faz com que a pessoa não consiga mais controlar a situação”, destaca.
Outra dica é evitar de pagar somente o valor mínimo da fatura. “Se achar que não será possível pagar o valor cheio da fatura durante todos os meses do parcelamento, o ideal é utilizar outra forma de pagamento. O cartão de crédito só é bom quando utilizado de forma correta e com muita disciplina”, adverte o economista.