Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o estresse da vida moderna é um dos maiores vilões da intolerância crescente entre os seres humanos. Pressão e sobrecarga no trabalho, cobranças em família, crise econômica, medo do desemprego, excesso de compromissos, aumento da responsabilidade e da concorrência deixam qualquer um ‘maluco’ e transformam o indivíduo numa bomba prestes a explodir.
Quando isso acontece, qualquer coisa pode ser a “gota d’água”. Para quem está à beira de um ataque de nervos, uma simples brincadeira acaba parecendo ofensa; uma sugestão pode ser encarada como uma grande bronca; a oferta de ajuda é entendida como atestado de incompetência ou concorrência. E é aí que ocorrem as brigas - que podem ir desde simples discussões até agressões físicas.
Para a psiquiatra Elaine Lúcia Dias de Oliveira, as pessoas precisam rever suas escolhas. “Elas se entregam, muitas vezes voluntariamente, a essas situações de uma maneira tão irracional, que não conseguem dar uma medida adequada à própria vida, não conseguem mais parar. A pessoa é enredada de um jeito que não consegue mais ver uma saída. Na realidade, elas estão se impondo viver no limite da exaustão”, comenta.
Segundo a médica, a “luz de alerta” deve acender quando o nível de irritabilidade e a instabilidade emocional começam a prejudicar o bem-estar geral do indivíduo.
“A produtividade no trabalho cai, a pessoa sente alterações na alimentação e na qualidade do sono, os relacionamentos afetivos começam a ter problemas – isso significa que o estresse está representando algum tipo de dano. Nesse momento, é importante parar e fazer uma reflexão de como está sua rotina”, sugere.
O psicólogo Sandro Caramaschi, professor de comunicação não-verbal da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, destaca o individualismo como outro fator importante para o aumento da intolerência entre os seres humanos.
“As pessoas estão muito centradas em si mesmas e pouco se importando com quem está do lado. As evidências mostram que essa cultura individualista atual passa para todas as dimensões da vida – vai para o trabalho, para a escola, para o trânsito. As pessoas estão lutando por seus próprios direitos, muitas vezes sem se dar conta dos direitos do outro.Parte dessa agressividade ocorre por conta disso”, alerta.
Paralelamente, segundo ele, a família tem descuidado da educação para a civilidade, empurrando a responsabilidade para as escolas.
“O que acontece, muitas vezes, é que não há uma preocupação adequada com o desenvolvimento humanístico das crianças. As escolas, freqüentemente, estão preocupadas com o conteúdo e nem tanto em ensinar direitos humanos, cidadania, respeito, tolerância, capacidade de cooperação - coisas desse tipo. Na prática, as pessoas ficam mais propensas a desencadear reações extremadas por não terem um treinamento social”, acrescenta.
Se fosse uma equação matemática, essa fórmula certamente não daria certo. Quando um age com falta de educação e desrespeito e quem recebe está estressado, o resultado pode ser desastroso. “E você ainda pode somar a isso as drogas, especialmente as bebidas alcoólicas, que estão presentes na maioria dos casos de violência, fazendo as pessoas reagirem completamente fora de seu padrão habitual”, lamenta Caramaschi.
As dicas
Para o psicólogo Sandro Caramaschi, só existem duas alternativas: mudar ou mudar o mundo. “Ou você acaba com a crise, com a pressão no trabalho e faz com que as escolas ensinem mais cidadania, ou você muda a si mesmo, reduzindo o seu grau de reação”, sugere.
O primeiro passo para isso, segundo ele, é ter consciência da própria irritabilidade e das reações desproporcionais, considerando que todos têm atitudes inadequadas muitas vezes, não só o outro. “Depois, é preciso que a pessoa tenha algum mecanismo de redução do estresse. Tem gente que consegue isso praticando esportes, outros preferem a meditação, o yoga, um hobby (...) o importante é estar em equilíbrio”, orienta.
Para minimizar os efeitos do estresse, a psiquiatra Elaine Oliveira aconselha que as pessoas revejam sua rotina. “Elas devem avaliar como estão administrando o tempo do dia. É muito importante para o equilíbrio físico e mental que tenhamos ilhas de prazer no dia. O dia tem 24 horas. Devemos destinar oito para o trabalho, oito para dormir e oito para comer e nos divertir - ter momentos de prazer e descontração”, afirma.
A médica destaca que, muitas vezes, as pessoas se sobrecarregam em mais de um emprego só para seguir a filosofia do consumismo. “Isso é extremamente escravizante e quem quer qualidade de vida tem que rever valores e prioridades na vida.
Os especialistas advertem que o estresse e a intolerâcia devem ser encarados como problemas de saúde quando começam a prejudicar a vida, em geral – seja no desempenho profissional, qualidade de vida (sono, alimentação, sofrimento) ou nos relacionamentos interpessoais. Eles alertam que o descontrole, muitas vezes, pode esconder transtornos mais sérios, que precisam de tratamento.