É um outro outono do patriarca o livro “Memória de mis putas tristes”, título da mais recente obra de Gabriel Garcia Márques, ainda sem data de lançamento no Brasil, mas já circulando com um milhão de exemplares vendidos na América Latina. Recebi o exemplar de 109 páginas, gentileza de um amigo chileno, e apresso-me a passar o principal, dentro das limitações do espaço. Trata-se de um misto de realismo mágico e crônica jornalística que o velho Gabo sabe fazer como ninguém. Só que o leitor é colocado na perspectiva do protagonista. Por um instante lembrei-me do poema de Rodrigues de Abreu, que viu no nosso bairro boêmio do início do século passado, “Milonguitas de pálpebras murchas e de olhos brilhantes”.
Memória fala do amor nos tempos da velhice. Começa com uma pretensão calhorda. Um ancião quer comemorar o dia dos seus 90 anos com uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Jornalista, com coluna semanal, passou quase cem anos de solidão gastando a herança com 514 putas em sua vida sexual. Leiloava objetos da sua casa estilo colonial para conseguir dinheiro já que o jornal lhe pagava pouco e a aposentadoria era exígua. Tudo igual ao Brasil.
Mesmo aos 90 ainda tinha espasmos sexuais. No dia do aniversário ligou para uma conhecida dona de bordel. Rosa custou, mas arranjou uma virgem de 14 anos. “Era bella, limpia y bien criada”. Morria de medo. O jeito foi dar-lhe uma droga para dormir. Assim, nua e dormindo, o ancião encontrou-a no quarto. Passou a noite admirando-a sem acordá-la. Queria viver um amor assim: ela não o conhecia, nem ele tocava nela. Repetiu essa noite várias vezes. A prosa cíclica fecha no aniversário no ano seguinte. Mostra que o velho sobreviveu mais um ano graças a esse amor louco. Ao contrário do que o título sugere ele não conta suas aventuras sexuais passadas. Em espanhol “triste” pode significar melancólico, amargo. Talvez este o verdadeiro sentido. O realismo mágico dá lugar a um surrealismo ocasional - a virgem a dormir sob efeito de tranqüilizantes em todos os encontros e o velho imaginando a menina em casa, como se ali vivesse. As putas padecem de tristeza e os velhos também.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC