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O fanatismo no poder


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George W. Bush tem a grande condição de ser claro, direto e não enganar ninguém. É um radical de direita e um fanático religioso convencido de que tem uma relação direta com o Deus no qual acredita, que não é o Deus misericordioso da melhor tradição cristã. É um Deus “justiceiro”, no estilo faroeste dos filmes de caubóis norte-americanos, que aplica a regra do “olho por olho, dente por dente”.

É um fato que Bush foi votado majoritariamente pelos setores rurais e pelos eleitores de credo evangélico, e não pelos freqüentadores das universidades, das artes e das ciências. Nesse sentido, como democrata e amigo da liberdade, recordo que na democracia o voto é decisivo, mas não é tudo. Longe disso. A democracia implica o domínio de suas regras e a observância da lei, do direito, do direito internacional, dos direitos humanos - tristemente questionados nas prisões de Guantânamo e Abu Ghraib, e em Bagdá e agora Faluja -, bem como da Justiça em sua acepção mais ampla.

E a democracia é caracterizada pelo sistema de controle e equilíbrio entre os poderes, tão abalado pelos grandes teóricos políticos norte-americanos como John Rawls. Precisamente, esse equilíbrio é o que está faltando na democracia norte-americana desde que Bush e sua equipe assumiram o governo. Isto é sintomático e extremamente grave. Porque esta reeleição não foi igual às outras. Reforçou o poder de um fanático, o presidente Bush, e de sua equipe de governo que não só é conservadora - isto seria o de menos -, mas que também tem um projeto contra-revolucionário coerente de poder concebido para transformar a fisionomia da América do Norte que conhecemos e para transformar o mundo.

Além disso, a vitória de Bush talvez seja o primeiro sinal do início de uma grande crise norte-americana e, inclusive, do Ocidente, se a União Européia não for capaz de encontrar líderes com a coragem de apontar as diferenças de valores que, desde agora, orientam as margens do Atlântico.

Temos, nos Estados Unidos, o predomínio de um conservadorismo sem compaixão, o recurso da represália e da violência, o desprezo pelos direitos humanos, o unilateralismo, o fanatismo religioso, a irracionalidade e uma força cega para combater o terrorismo que não objetiva erradicar suas causas complexas, entre as quais se sobressaem a pobreza e a humilhação. E na Europa temos o culto da racionalidade e do diálogo, o multilaterismo e o respeito pelas Nações Unidas, o laicismo, a tolerância, a prioridade para os direitos humanos e o desenvolvimento sustentável com sua dimensão social e ecológica.

Este é o fosso que hoje em dia nos separa. Se não tivermos a coragem de apontar a verdade em tempo hábil, mais cedo do que tarde deslizaremos para o abismo para o qual se dirige a grande América do Norte, rodeada pela incompreensão e o ódio, com uma fragilidade social que está se acentuando, e presa no atoleiro do Iraque. Os próximos anos serão duros. A opinião mundial está alerta e hoje conta muito, também nos Estados Unidos.

O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996

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