Manter a casa, equilibrar o orçamento doméstico, encarar e superar as preocupações do trabalho e, de quebra, ainda cuidar dos filhos. Não são poucas as pessoas que enfrentam essas verdadeiras “maratonas†no dia-a-dia e que, em meio à correria do cotidiano, acabam utilizando o veículo como “sala de estar†ou divã para resolver e estimular dinâmicas familiares, acompanhar o desenvolvimento das crianças na escola e entender o que pensam ou, ainda, conversar com os amigos.
Exemplos disso não faltam e ocorrem nas mais diversas situações, como durante o trajeto da casa para a escola, e vice-versa, quando muitos pais aproveitam para interagir com seus filhos. É o caso da analista de sistemas bauruense Adriana Cristina Macedo Oliveira, que diariamente é a “chofer†de Tainá, de 4 anos, para o colégio. Ela conta que, na oportunidade, utiliza o veículo como um complemento da residência. “Normalmente, discuto assuntos relacionados à escola, como se ela fez alguma arte, se fez direito as tarefas e se teve algum problemaâ€, resume.
Segundo Oliveira, estes são momentos que não podem ser desperdiçados com o silêncio. “Várias vezes precisei orientá-la após ter passado por alguns problemas na escola e fiz isso no carro. Não esperei chegar em casa, pois ali é o primeiro contato que temos com a criança e os conselhos precisam ser imediatos, pois na residência a possibilidade de distrair-se com algo é maiorâ€, enfatiza.
Já o corretor de seguros bauruense Álvaro Dabus também considera a hora de levar o “filhão†Rodrigo Dabus, de 5 anos, à escola um momento sagrado. “Viajo diariamente e, quando tenho a chance, sacrifico até o almoço para ficar com ele e conduzi-lo ao colégio. A gente vem ouvindo música e conversando sobre a escola e ele fala muito mais do que euâ€, brinca. E acrescenta: “Só que não adianta nada ficar uma hora com a criança e não lhe dar atenção. O importante não é a quantidade de tempo que se permanece, e sim a qualidade. Por isso, para mim, considero esses minutinhos que lhe dedico fundamentais.â€
Quem também defende a qualidade durante os pequenos momentos de convivência no interior do automóvel é a psicóloga bauruense Ana Karina Kasana, outra mãe cuja rotina é atribulada e aproveita a tarefa de levar e buscar na escola a filha Mariana Kasana da melhor forma possível. â€œÉ uma boa oportunidade que a gente tem de trocar idéias e saber o que ocorreu, especialmente depois das aulas. Em casa isso fica mais complicado, porque quando a gente chega ainda tem um monte de coisa para fazerâ€, salienta.
Tendências
Segundo a psicóloga bauruense Daniela Gibin Duarte, a interação social no interior do automóvel é reflexo de uma tendência. “Principalmente para as pessoas que trabalham muito e tem tempo mais restrito. Entretanto, conversar é algo natural, pois é uma das únicas coisas que se consegue fazer ao mesmo tempo em que se dirigeâ€, frisa.
Daniela justifica que os automóveis tornaram-se extensões das vidas das pessoas. “Somando o fator de identificação e familiaridade com o carro à forma como as pessoas têm vivido e dividido seu tempo, o carro tornou-se uma extensão de seus lares, trabalhos, lazer, restaurantes, cabeleireiro, cama e até do divã de um psicólogoâ€, argumenta a psicóloga.
Ela complementa que, como eficiente meio de transporte, o carro facilita o intercâmbio comercial e cultural entre as pessoas e propicia um relacionamento mais intenso e contínuo, além de representar a praticidade para resolver problemas. “Uma vez que o homem está em constante comunicação com o ambiente e os indivíduos, é nesse relacionamento que ele encontra sua realização e a satisfação de suas necessidadesâ€, diz.
Apesar disso, Daniela sustenta que a socialização nos veículos devem funcionar apenas como um complemento das atitudes que devem ocorrer previamente em casa. “Ela não deve substituir a existente nos lares nem servir de válvula de escape para se discutir um assunto espinhoso rapidamente aproveitando-se do fato que a permanência no carro será curtaâ€, alerta.
Para a psicóloga, é preciso ter sensibilidade para se adequar os assuntos ao volante. “Nem todos devem ser conversados no carro, pois também é necessário levar em consideração variáveis como o tempo e a atenção no trânsito que influenciam diretamente na segurança viáriaâ€, enfatiza.
Daniela recomenda, ainda, jamais transformar o automóvel como uma extensão do trabalho. “Dirigir escrevendo ou lendo, com a cabeça baixa e visão prejudicada, tendo que falar no celular, ouvindo mensagens, resolvendo problemas e tomando decisões atrapalha o motorista e, principalmente, é perigoso para o trânsitoâ€, ressalta.