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Números também mentem


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A estatística nasceu como necessidade do Estado. No século XVIII, o vocábulo foi usado pela primeira vez inspirada na palavra italiana “statista”. Mas vem de longe o costume de analisar coleções de dados numéricos. O Velho Testamento e os documentos da Babilônia, do Egito e de Roma fazem referência a dados censitários. Na Idade Média, premidos pelas sucessivas epidemias que devastavam a Europa, os governos mantinham registros de dados sobre a mortalidade causada pelas doenças transmissíveis na

época.

Mas a popularização da estatística deveu-se aos computadores e à imprensa. Os primeiros por abreviarem o tempo de elaboração dos cálculos. A segunda, por divulgá-las insistentemente. Com isso, a estatística entrou no uso corrente de empresas, instituições, políticos e pessoas físicas em geral. Estatisticamente, tudo pode ser explicado, até o governo de um prefeito bisonho. Benjamin Disraeli, o notável estadista inglês, disse certa vez que “há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras condenáveis e estatí

sticas”.

Fui atrás de um pouco de lixo cultural quando li que a esperança de vida no Brasil passou de 70,5 para 71,3 anos. Gente do governo chegou a atribuir tal performance ao Fome Zero, ou ao programa social do Lula, como um todo. Esconderam que a estatística do IBGE refere-se ao período de 2000 a 2003. Ainda assim é pouco, se comparado com o Japão, onde o índice chega a 81 anos. Também é verdade que na década de 60 a média dos brasileiros que “não desistem nunca” e conseguiam sobreviver nos primeiros cinco anos chegava, no máximo, aos 46 anos. Para os dados atuais contribuíram os avanços da medicina e a descoberta de medicamentos capazes de efeitos fabulosos. Melhores condições de higiene, também

.

O formidável volume de informações estatísticas veiculadas pela imprensa exige do jornalista competência e desenvoltura. Vivemos numa época de “numeracy”, como dizem os estatísticos ingleses. Consiste em erigir os números como fontes de toda verdade. O que, segundo os autores, leva o cidadão, freqüentemente, a se guiar, a se comportar e a tomar decisões impulsionado por falsas conclusões estatísticas.

Voltando à nossa expectativa média de vida de 71,3 anos, é preciso deixar claro um outro dado negativo. Poderíamos ter ganho mais três anos não fosse o efeito devastador das mortes violentas, sobretudo entre os jovens. Aqui em Bauru já ocorreram 60 assassinatos este ano. O índice por 100 mil habitantes é seis vezes maior do que na Escandiná

via.

Os números, da mesma forma que permitiram a rápida evolução das ciências naturais e das ciências sociais, explicitando verdades irretorquíveis, também podem escondê-las. Tanto quanto ajudam a garantir conclusões verdadeiramente científicas.

O professor Antonio Dal Fabbro, da Fundação Getúlio Vargas, chamava a atenção da responsabilidade dos jornalistas que precisam “assumir postura de saudável crítica ante a pletora de informações estatísticas em curso no nosso cotidiano”. Ele prega a necessidade de um jornalismo ético diante da estatística. O profissional da informação não pode ir aceitando qualquer bobagem numérica jogado para o ar. É preciso investigar a sua legitimidade para poder interpretá-la corretamente para os usuários da informação. Em Porto Alegre, um leitor acionou o jornal que publicou uma notícia errônea e, mesmo depois de apontado o erro estatístico, não a corrigiu. O juiz condenou o jornal a devolver o dinheiro pago na banca pelo leitor. Pode virar moda. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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