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Entre a batuta e o bisturi

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 12 min

Vinte e quatro horas devem ser pouco para quem divide seu dia entre a medicina, a música e a vida pessoal. Pois o cirurgião plástico e maestro Marcos Virmond parece driblar o relógio. Ele consegue com distinção conciliar a função de diretor do Instituto Lauro de Souza Lima com a de regente e coordenador da Orquestra de Câmara da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru. Casado, pai de dois adolescentes, fazendo o doutorado em música e lutando para atingir tantos outros objetivos de vida, ele ainda achou um tempo para contar um pouco de sua trajetória ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - O que veio primeiro, a música ou a medicina?

Marcos Virmond – Sem dúvida nenhuma, a música veio primeiro. A música é uma coisa inata ao homem. Explorar isso com maior ou menor profundidade é só questão de oportunidade e experiência. Mas, sem dúvida, a música veio cedo. Aos 7 anos eu já tinha uma professora de piano nos moldes clássicos.

A medicina veio depois, mas não muito tempo depois. Eu tinha uns 13-14 anos e já pensava nisso, porque venho de uma família de médicos. Tenho tios médicos, meu avô era médico - ele formou-se em 1914. Então, a medicina sempre esteve muito presente no meu cenário, mas a música veio primeiro.

JC - Como foi sua trajetória com a música, desde essa professora aos 7 anos?

Virmond - É interessante... Por eu ser filho de militar, é altíssima a mobilidade geográfica e isso contribuiu. A cada cidade que tínhamos de nos mudar para, procurávamos quem continuaria os estudos (...) Até que entrei numa segunda escola de música muito importante - o Coral da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

JC - Então, o senhor já estava cursando medicina.

Virmond - Exatamente. Foi quando entrei no curso de medicina. Era um coral sinfônico. Fazia obras sinfônicas junto com a Orquestra de Porto Alegre. Esse grupo era uma das escolas de música mais ativas de lá naquela época.

Era altamente efervescente, vivíamos num ambiente extremamente estimulante, instigante e isso me abriu portas para aprimorar técnicas, para aprimorar o conhecimento musical.

Ali, passei alguns anos aprendendo música numa situação não hierarquizada, não estratificada, mas altamente estimulante. Talvez esse tenha sido o período de maior aprendizado para mim, assistindo aos ensaios da orquestra, sem a obrigação de cumprir grade curricular, nada disso. Hoje eu vejo que aquilo foi extremamente positivo.

Claro que como todo aprendizado não estruturado, ele tem seus defeitos, deixa lacunas, mas isso eu tentei corrigir depois, fazendo aulas regulares.

Em resumo, esse foi o momento mais ativo. Eu procurei a universidade na época, tentei fazer o curso regular de música no Instituto de Artes da universidade paralelamente à medicina, mas, num determinado momento, eu vi que precisava fazer uma opção.

O curso estava chegando num ponto crucial, que exigia mais dedicação, por volta do terceiro ano. E a música estava numa enorme efervescência, justamente por causa da vivência naquele ambiente altamente estimulante e criativo. Inclusive, a esta altura, eu realmente já trabalhava à noite na Orquestra de Porto Alegre como maestro assistente.

Mas tive de cancelar. Eu não tinha condições de levar as duas coisas. Foi uma decisão. Eu realmente decidi me dedicar à medicina e não à música naquele momento – pelo menos do ponto de vista formal. E isso aconteceu com outros colegas meus. Muitos, inclusive, fizeram a opção contrária - deixaram a medicina como algo secundário e seguiram fazendo a música.

Eu não. Eu realmente sempre gostei da medicina, cheguei ao entendimento que deveria me dedicar mais ao curso de medicina e assim o fiz. Formei-me em 1974, fiz residência médica em cirurgia plástica por mais cinco anos. O que não impediu que, depois, eu procurasse repor essas perdas na música, reaprender e aprender mais, como estou fazendo até hoje.

JC - Na verdade, o senhor escolheu duas opções opostas e as duas exigem uma dedicação muito grande, muitas horas de estudo e atualização diárias. Como o senhor concilia tudo isso?

Virmond - Você tocou num ponto complexo, é absolutamente a verdade. A quantidade de informação que se exige do médico para sua formação e atualização é enorme. Mas depois que eu estudei música, eu percebi que a quantidade de informações disponíveis sobre música também é enorme. Na verdade, toda ciência é ampla. A capacidade do homem em esmiuçar o conhecimento e acrescentar conhecimentos é interminável.

Então, o problema foi exatamente este: como eu vou conseguir conciliar todas essas coisas. Isso sempre foi uma grande dicotomia em minha vida, algo que me deixou angustiado a vida toda. Hoje eu diria que isso já está resolvido, mas muito recentemente.

Como você mantém uma posição ética e competência profissional em duas coisas tão complexas? E esta é a minha vontade, meu desejo, meu preceito de vida. Eu não posso admitir que eu seja um bom médico e um mau músico e não posso admitir também que eu seja um bom músico e um mau médico. Eu tenho que ser, quero ser e vou ser um bom músico e um bom médico.

Agora, como se pode chegar a isso, eu acho que é uma questão de vontade. Claro que uma boa porção de disciplina também é fundamental. E um grande poder de renúncia, porque você está priorizando coisas e há coisas na vida que não são prioridades.

JC - Por exemplo?

Virmond - Vou citar um exemplo simples, mas que hoje, na sociedade moderna, é um dos elementos que mais consomem tempo: ver televisão. Eu só assisto aos noticiários, um ou outro programa mais interessante e não me faz falta. Pois a TV é absolutamente um dos maiores consumidores de tempo do homem moderno e praticamente sem a menor retribuição. Isso, para mim, não é importante.

Claro que é um meio de comunicação importante, mas ela precisa ser colocada num patamar mais educativo.

JC - Osenhor não teria disponibilidade, por exemplo, para acompanhar uma novela...

Virmond - Exatamente. Eu uso esse tempo para a música, para a medicina e para cumprir uma série de tarefas que tenho de cumprir para conduzir essas duas coisas a contento. Porque como se diz, você nunca consegue enganar todo mundo por muito tempo (risos).

Você precisa se qualificar. Se você não tem uma qualificação, uma preparação sólida, mais cedo ou mais tarde isso virá à tona e você perderá rapidamente sua credibilidade. Como aqueles meus colegas que optaram pela música e nunca se expuseram profissionalmente em medicina, que é altamente sujeita a ‘chuvas e trovoadas’.

JC - É muito fácil errar em medicina, não é?

Virmond - Muito e com conseqüências muito sérias. Eu costumo dizer para meus músicos na orquestra, quando eles dizem que não estão suficientemente preparados para tocar determinado trecho, eu digo ‘tentem’, porque a diferença

entre música e medicina é que na música você pode errar e isso traz aprendizado. Em música, na literatura, nas artes é possível errar. Mas na medicina e em algumas outras áreas não, pois isso poderia ter conseqüências graves para outras pessoas.

Então, para completar essa questão da dicotomia, você tem que resolver isso e é uma coisa muito complicada. Ou você opta por se dedicar a uma e deixa a outra abafada, pelo menos por um tempo, ou você assume as duas no mesmo nível, tentando mostrar o máximo de competência possível.

JC – O senhor é casado, tem filhos... há muita cobrança?

Virmond - Sou casado, tenho dois filhos - um casal de gêmeos de 15 anos. Mas sobra tempo sim. A família sempre vem primeiro. Claro que, às vezes, eles sofrem um pouco, mas eu acho que não é o tempo. É mais uma questão de aceitação.Afamília precisa entender qual é o projeto de vida de cada um dos seus membros. Se isso é entendido, eu acho que não há cobrança.

Claro que você também não pode ser omisso - não é porque eles entenderam meu projeto que vou fazer só o projeto. Mas precisa haver compartilhamento, doação. E se há essa conversa, esse entendimento, essa doação, uma compreensão multilateral, não há cobrança.

JC - Oque o senhor pode citar como momentos marcantes nas suas duas profissões?

Virmond - Na medicina, foi entrar no Instituto Lauro de Souza Lima. Porque, na realidade, o Instituto Lauro de Souza Lima era um daqueles desejos subjacentes, que você tem como meta de vida. Eu conhecia o instituto há vários anos, trabalhando ainda em Porto Alegre (RS). De repente, as coisas se conjuminaram e eu vim para cá.

Larguei tudo em Porto Alegre, onde já tinha uma vida mais ou menos estruturada e vim para Bauru (em 1991) por causa do instituto. Cheguei à conclusão que o que eu queria fazer era o que se fazia no instituto. Acho que esse foi o ponto mais marcante. Por quê? Porque, depois de 12 - quase 13 anos - até hoje eu sinto que vir para o Instituto foi uma das coisas mais certas que eu já fiz na vida.

Inclusive porqueum dos elementos que eu tinha certeza que eu ia perder era a música. Naquele momento, a música era uma das minhas ligações mais fortes com Porto Alegre - eu trabalhava com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, trabalha eventualmente com a orquestra sinfônica da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica) e isso tudo era muito importante para mim.

Então, eu tive que realmente optar. Disse ‘vou’, sabendo que estaria acabando - ou pelo menos correndo o risco de acabar - com minha vida musical.

JC - Então, surgiu a USC.

Virmond - Pois é. Eu aceitei a proposta, aceitei a idéia de acabar com minha vida musical, porque Bauru é uma cidade que não tem uma tradição cultura. E realmente passei um ou dois anos afastado da música. Mas alguém na USC soube que eu trabalhava com regência, eles estavam precisando de professores, me convidaram e ali começou uma ligação muito proveitosa (...)

Aí, respondendo o que mais me marcou na música, são várias coisas. Eu ganhei prêmios - foram momentos importantes, mas são marcações fugidias, você comemora naquele momento, depois vira plasma.

Eu diria que o ponto mais importante foi o dia em que a universidade me pediu “monte uma orquestra”. Aquele foi o momento fundamental, como realizar aquele sonho final, ter uma orquestra, trabalhar uma orquestra, oferecer uma orquestra para a comunidade. O pedido foi feito no final de 1997 e inauguramos a orquestra no dia 15 de janeiro de 1998 - foi nosso primeiro ensaio (...)

JC - E qual foi o momento mais difícil em sua carreira?

Virmond - Com muita clareza, foi quando assumi a direção do instituto, em 1997. Eu tinha muita clareza do que precisava fazer, do que eu queria fazer, onde queria chegar com essa instituição. Mas quando você assume a liderança de uma instituição pública, você é imediatamente identificado como inimigo, incompetente, corrupto.

Talvez este tenha sido o ponto mais crucial de toda a minha carreira, porque os meus conceitos de fazer medicina nunca mudaram. Desde que entrei na faculdade sempre entendi que isto é um bem da sociedade, da comunidade. Evidentemente que o médico precisa sobreviver, precisa comprar livros, ganhar dinheiro, criar a família, mas a medicina é um bem que você não pode comercializar excessivamente (...)

E, tendo essa concepção muito firme dentro de mim, enfrentar situações como essa é extremamente chocante, conflitante, desagradável, depressivo, irritante e todos os outros adjetivos. E isso parece ser uma coisa insolúvel não muda, é cultural. Talvez eu devesse estar melhor preparado, saber que isso fatalmente iria acontecer. Acontece que isso não estava muito claro para mim, então foi uma enorme decepção.

JC - Como o senhor prefere ser chamado - doutor ou maestro?

Virmond - Hoje, no instituto, eu faço absoluta questão de ser chamado médico. Fiz doutorado em cirurgia e por isso alguns me chamam de doutor. Mas quando estou na orquestra e eles anunciam “vai reger maestro doutor Marcos Virmond”, eu fico profundamente incomodado. Ali não é o doutor, é o maestro (...)

Estou fazendo doutorado em música agora. Não só para aprender mais, aprimorar, mas exatamente para dar uma última retocada naquela eterna dúvida, naquela pontinha de dicotomia de saber como ser bom nisso e naquilo. Eu tenho a impressão que com o doutorado em música vou ficar mais tranqüilo. Aí vou conseguir uma competência equilibrada em ambas as áreas.

JC - O senhor tem uma queda’ maior por uma ou outra profissão?

Virmond - Não. Cada dia fica mais claro para mim a relevância que as duas têm. Eu me sinto extremamente satisfeito quando estou dentro do centro cirúrgico operando um paciente. E me sinto extremamente satisfeito quando estou num ensaio com a orquestra. São duas coisas que eu faço com enorme prazer.

JC - Qual é seu lema?

Virmond - É muito simples: “Amai-vos uns aos outros”. Se você fizer isso, você não tem problema. O resto dá certo.

JC - O que o senhor espera do futuro?

Virmond - Aí são coisas bem pontuais. No instituto, temos trabalhado diariamente para oferecer bons serviços médicos para nossa comunidade. Essa é uma meta que estamos sempre buscando melhorar. Engrandecer o instituto como centro de pesquisa, melhorar a capacidade científica dele - é uma batalha que não vai acabar nunca.

E, na música, é formar gente. Acho que meu grande desejo para o futuro em música é formar músicos e é o que eu tenho feito na USC. Eu entendo a orquestra como uma grande escola de música. Em parte, o doutorado em música também é para poder melhor ensinar (...)

É inadmissível que uma cidade com quatro universidades importantíssimas e várias outras entidades de ensino superior - uma cidade voltada para a formação - não tenha tradição cultural. A música é uma coisa fundamental para a formação do homem - para a formação do bom homem.

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