Que herói sou eu? Aquiles, Odisseu, Heitor, esses homens extraordinários que se destacavam dos demais por suas convicções inabaláveis, suas ações determinadas, por seus feitos guerreiros inolvidáveis?
Penso que o triste ou alegre Fado, estando sempre nas mãos dos deuses, ora róseo, mas muitas vezes terríveis, exigia deles - por isso heróis - atitudes audaciosas: ter a vida, em suas próprias mãos, domesticar o destino. Lembremo-nos de Prometeu desafiando a figura do todo poderoso Zeus, roubando-lhe a chama da inteligência e oferecendo-a aos homens. Como esses heróis, tomei um dia o destino em minhas mãos?
Que herói sou eu? Eurico que, impedido de amar Hermengarda, torna-se padre, compondo, na solidão de seu claustro, hinos religiosos, uma espécie de erguei as mãos, as mesmas mãos que desferiam golpes de espadas, estourando miolos árabes?
Como Eurico, estouraria os miolos dos que não tivessem a mesma crença que eu, fossem árabes, judeus, irlandeses? Explodiria aviões contra as torres gêmeas do World Trade Center, ou bombas em Madri, invadiria o Iraque?
Que herói sou eu? Um navegador da Era Moderna, Vasco da Gama, símbolo de todo um povo que, com suas caravelas, impulsionou a globalização, desafiando o reacionarismo do Velho do Restelo? Ou sou esse tal velho que, opondo-se ferrenhamente ao poder constituído, vociferando contra tudo e contra todos, se um dia assumisse o poder, mudaria meu discurso, esquecendo-me de minhas convicções e promessas?
Talvez eu me identifique mesmo seja com os anti-heróis, esses pobres diabos, obrigados a se sujeitarem às necessidades que o infernal destino lhes impõe, fazendo-os sucumbir, muitas vezes sem defesa, às armadilhas da existência, ou superando-as, favorecidos pela sorte, pelo acaso. Ou mesmo uma outra espécie de anti-heróis, os privilegiados pela fortuna, pelo berço, mas sem nobreza de alma. Pobres diabos, ou ricos diabos, deformados, uns e outros, em seu caráter, em seus objetivos, sempre mesquinhos e, muitas vezes, aviltantes.
Assim, eu modifico minha pergunta: sou um anti-herói, como Brás Cubas, aquele que nunca precisou ganhar o pão com o suor de seu rosto e que na infância cavalgava, por galhofa, um pequeno escravo, o menino Prudêncio? Brás Cubas, inventor de um emplasto anti-hipocondríaco que o tornaria, além de rico, famoso, mas que, ironicamente, morreu de pneumonia? Sou semelhante a ele e a outros dessa estirpe, como aquele capitalista do poema que inventou um xarope contra tosse e depois rezou, rezou fervorosamente, para que todos tivessem tosse, muita tosse?
Sou Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, carecendo ainda ser plasmado, esculpido, ser amoral, preguiçoso, a decepar cabeças de saúva, gostando sempre de brincar e que, quando deixou o mato virgem, em busca da muiraquitã, pedra da sorte, deixou também lá, na ilha de Mapará, na ponta dum mandacaru de dez metros, sua consciência? Os brasileiros somos todos macunaímas?
Ou sou Macabéa, a datilógrafa alagoana que se mudou para o Rio de Janeiro e sonhou ser a Marylin Monroe? Ela que deveria ter ficado no sertão? A que não fazia falta a ninguém? A que não sabia de si, como um cachorro não sabe dele? Era morta? Ia morrer? Macabéa somos todos os brasileiros? Se somos todos macabéas, fabianos e severinos, neste mundão de meu Deus, quem poderá nos defender? O Chapolim Colorado? Ou nós, de nós mesmos, reacendendo em nosso peito esse fogo com o qual Prometeu nos criou, acordando heróis em nós adormecidos, mesmo que sejam nossos calcanhares demasiadamente humanos? Ou, por conta dessa escuridão, bastará a nós o fogo longínquo e azul das estrelas?
O autor, Luiz Vitor Martinello, é professor e escritor