Pesca & Lazer

História de pescador: O vôo da cerejeira


| Tempo de leitura: 4 min

Dizem que um pescador que se preza não mente, mas, sim, inventa ‘verdades’. De volta de mais uma pescaria, que não foi lá ‘essas coisas’, trago na memória uma aventura vivida e, diga-se de passagem, inesquecível. Antes, devo justificar meu enunciado de que a pesca não foi lá ‘essas coisas’, pois não presenciamos a fartura de peixes que o local visitado prometera. Entretanto, podemos afirmar com toda convicção que ‘mais vale um mau dia de pesca do que um bom dia de trabalho’. Coisas de pescador...

Sem mais demora, vejam o que aconteceu...

Estávamos numa ‘turminha’ de fazer gosto, aliás, os amigos de sempre: Sidney, meu piloteiro preferido; Cirineu, o melhor cozinheiro do mundo; e Neguitinho, bom de bola e de pesca. Não posso me esquecer do Helião, bom companheiro e dono de um imenso barco, para ninguém botar defeito.

O rancho, localizado às margens do rio Aquidauana, é um cenário de infinita beleza. Árvores frondosas cobrem a confortável casa de alvenaria, propiciando uma bela sombra ao longo do rio, no terreno daquela propriedade. No fundo do rancho, a mais ou menos dez metros da casa, passam os trilhos da antiga NOB (Estrada de Ferro Noroeste do Brasil), hoje denominada Novoeste.Um pouco mais além, do solo úmido e enfeitado pelas plantas nativas, se erguem as rochas rosadas da Serra de Maracaju, completando a beleza do local. Como se tudo isto não bastasse, ao redor da casa, há um magnífico pomar, onde se pode degustar, ao pé das árvores e sem muito esforço, deliciosas acerolas, pitangas, goiabas, jabuticabas, carambolas e cerejas. E ainda há quem diga que o ‘paraíso’ não existe. Dá uma chegadinha lá pra ver...

Bem, e a pescaria? Sofrível! Peixe, nem pra remédio! Que remédio, não? Diante das circunstâncias, o jeito era apreciar o esplendor da natureza, ouvir o cantar dos pássaros multicolores e, ainda por cima, tomar uma cerveja bem gelada.No dia seguinte, pela manhã, conversando com o privilegiado dono do local paradisíaco, senhor Valdecir, percebi a sua aparente irritação.

Embora aquele simpático pescador nos acolhera com muita atenção, estava ele com cara de poucos amigos pra não dizer furioso mesmo! Confessou-me, quase às lágrimas, que uma grande quantidade de pássaros, atraídos pelas frutas do pomar, estava causando danos imensos, destruindo quase toda a produção das várias árvores frutíferas do rancho. Apontou, entristecido, para um arbusto com aproximadamente um metro e meio de altura, uma pequena cerejeira ainda em crescimento, porém repleta de vermelhas e reluzentes cerejas. Disse-me que já havia feito de tudo para espantar os pássaros, infelizmente sem bons resultados. No meio de nossa conversa, olhando para a pequena árvore, percebi que alguns passarinhos pousavam suavemente em seus finos galhos para saborear, com frenéticas e repetidas bicadas, as deliciosas e maduras cerejas.

- É assim o dia todo e à noite também! - vociferou o pobre e desconsolado Valdecir. - Tive uma idéia! - respondi em seguida. Você tem alguma cola aqui no rancho? Vamos passá-la nos pequenos galhos da cerejeira ao cair da tarde e aposto que, logo mais à noitinha, teremos uma grande passarada presa pela cola, sem poder voar. - Será mesmo? - duvidou, com um olhar descrente, o Valdecir. - Com certeza! - respondi. Se tudo de certo, apanharemos os pássaros e vamos soltá-los bem longe daqui! Fizemos o serviço combinado. Logo após o jantar, sorrateiramente abrimos a janela do quarto com vista para o quintal e, com auxílio de uma lanterna, vislumbramos dezenas de pássaros que se debatiam, tentando inutilmente voar, pois ficaram ‘coladinhos’, com suas pequenas garras envolvendo os galhos do arbusto. Num impulso natural, Valdecir já ia correndo para o pomar. - Espere! - gritei segurando-o pelo braço. Vamos aguardar até o amanhecer e teremos centenas deles grudados, você não acha? Valdecir concordou. A quietude da noite e o cansaço nos trouxeram o sono. Já era madrugada quando acordamos com um farfalhar intenso, uma tremenda zoada, lembrando um arrastar de folhas ou coisa parecida!

Que bela surpresa! Quando abrimos a janela, vimos, boquiabertos e quase sem acreditar, a pequena cerejeira em plena ascensão ao céu, carregada por milhares de pássaros que, grudados nos seusgalhos, conseguiram arrancá-la com raízes e tudo! A exuberante lua cheia que banhava o arvoredo com sua luz prateada tudo assistia em silêncio. Ainda me lembro da poeira fina a me ofuscar os olhos, caindo das raízes da cerejeiraque, lentamente, voava em direção às estrelas... O pomar do inconformado amigo Valdecir ficou com uma árvore a menos e eu, com um tremendo remorso por ter dado aquela idéia ‘brilhante’ para salvar as frutas...

Fernando Lucilha Júnior é pescador, contador de histórias e vencedor, em primeiro lugar, do 1º Concurso Nacional de Causos de Pescador

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