Engana-se aquele que acredita que a longevidade é um segredo indecifrável. Ultrapassar a casa dos 100 anos de idade de bem com a vida é muito mais fácil do que se imagina num País onde a morte, na média, chega aos 70. Em Bauru, 47 pessoas superaram a marca de um século, de acordo com cálculos baseados no último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No Brasil, os centenários eram 24.576 pessoas em 2000. Mas esse número, segundo o IBGE, deverá aumentar 15 vezes até 2050, atingindo a marca de 2,2 milhões, um dos crescimentos mais expressivos entre todos os extratos da pirâmide etária.
Mas não há nenhum elixir da vida à disposição nas prateleiras das farmácias. O que se ouve nos relatos dos bauruenses centenários são atitudes simples e corriqueiras, capazes de manter acesa a chama da vida.
O caminho da longevidade passa, obrigatoriamente, pela intensidade da relação que se mantém com a vida: viver bem a cada batida do coração. É o que prega Orie Hiratsuka, que no dia 20 de outubro passado completou 102 anos de idade. Natural da Ilha de Fukuoka, no Japão, ela chegou ao Brasil com 25 anos. Não fez muita questão de aprender o português.
A idade não a impede de fazer crochê, de cuidar diariamente das plantas do jardim de sua casa e muito menos de tomar banho e se alimentar sozinha, sem a ajuda de ninguém. Segundo Tadaioshi, seu filho, Orie tem uma vida normal. “Come de tudo, sem restrição”, completa.
Não há segredo na sua rotina de vida: levanta cedo, por volta das 7h, e lê revistas da Seicho-no-Ie. “Mas detesta cigarro e bebida alcóolica e come pouco sal”, dá a dica. Trabalhou muito até os 80 anos. “Nessa época de trabalho duro, sempre levantava às 4h e só voltava da roça depois de escurecer”, lembra Tadaioshi.
Sua última visita a um médico ocorreu há mais de um ano, quando quebrou o braço. Orie reforça que não há segredo para passar a casa dos 100 anos de idade, mas deixa escapar uma dica: “Nunca briguei com ninguém. Sempre vivi de bem com a vida.” Essa é a lição que prega a seus quatro filhos, 21 netos, 33 bisnetos e um tataraneto.
Em branco
Quanto mais a idade ultrapassa os 100 anos, a receita da longevidade ganha consistência com condimentos simples. O baiano de Juazeiro José Aguinelo dos Santos, 116 anos, diz que comeu muito arroz com mandioca. Negro, ele nasceu 54 dias após a princesa Izabel assinar a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão no Brasil. Era o dia 7 de julho de 1888.
Aguinelo fez do Asilo da Vila Vicentina a sua casa. É seu mais antigo morador: desde 1973, portanto há 31 anos. Se alguém se arriscar a olhar seu prontuário médico, vai encontrá-lo em branco. Tem pressão de 14x8 e é fumante desde os 21 anos, ou seja, seu vício já completa 95 anos.
Mas quem o observa saboreando seu cigarro percebe que não há trago. Homem de poucas palavras, o baiano passa o dia andando pelo interior do asilo. Tem o costume de recolher tudo que vê no chão. Sua última visita a um médico fez um ano. Foram preciso sete homens para segurar o baiano e obrigá-lo a enfrentar uma picada de injeção que ajudou a curá-lo de uma gripe.
Arrasta-pé
Quem canta, seus males espanta. O ditado popular é um santo remédio para sacudir a poeira e dar a volta por cima. Aos 101 anos de idade, Albina Enz Oberleitner tem saudades da época em que morava no sítio e não via a hora de chegar o final de semana para dançar forró com o marido, administrador de fazenda.
“Dançávamos a noite inteira. Jogávamos fubá no piso para ficar liso e fácil para arrastar o pé. Após o baile, íamos direto tirar o leite das vacas”, lembra. Filha de suíços, o cenário a qual se referiu era uma fazenda próxima a São Manuel.
“Éramos sempre visitados por Tonico e Tinoco. Fiz muito quentão e bolacha para os dois, que viviam fazendo serenatas na fazenda”, relata. Albina mantém no quintal de sua casa uma parreira, que cuida com muito carinho.
Mesmo com o fêmur fraturado em consequência de uma queda, ela insiste em manter sua rotina de vida. Sua dica para viver mais de 100 anos: “Deite e acorde cedo. Evite comida salgada e azeda.”
Só coco
A experiência de viver na mata e tirar dela seu sustento pode ser o segredo da longevidade da baiana Enedina Maria Pereira dos Santos, nascida em Jacaraci em 20 de outubro de 1884. São 120 anos bem vividos. “Na mata, não havia muito o que comer: era água de coco e depois o coco. Um por dia bastava”, lembra.
Com uma memória impressionante, Enedina fala com carinho do avô, com quem aprendeu um dialeto negro. Moradora do Cantinho do Idoso de Piratininga, mantido pelo Centro Espírita Antoninho Marmo, a baiana amanhece o dia rezando. Quando dá vontade, vai a pé à igreja que fica próxima do asilo.
“Rezo para todo mundo que pede”, conta. Desde que se conhece por gente, Enedina não janta. “Tomo um copo de leite. E só.” Embora negra, ela garante que seus pais, irmãos e parentes não foram escravos, mas enfrentaram a fúria de fazendeiros que ainda impunham à raça trabalhos forçados. “Sobrevivi”, finaliza.