O avanço da tecnologia e a facilidade de acesso na aquisição de todo e qualquer tipo de arma de fogo foram preponderantes para a modificação do cenário de violência nos últimos 50 anos em Bauru. A afirmação é do titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), JJ Cardia.
Sua constatação é embasada em relatório da Polícia Civil de Bauru, que documentou as mortes por suicídio e assassinato no transcorrer do ano de 1953. A cidade tinha uma população calculada em 65 mil habitantes e vivia em clima de um típico município interiorano.
As notícias de mortes, naturais ou não, eram facilmente esparramadas na cidade de boca em boca. Segundo Cardia, o que mais chama a atenção no relatório de 1953 são os registros de suicídio. Naquela época, eram poucos que tinham armas de fogo.
“O Brasil ainda não possuía fábrica de armas. Portanto, elas eram importadas e custavam caro”, explica. O documento da Polícia Civil datado de 1953 aponta que sete pessoas tiraram a própria vida com o emprego de formicida.
Uma outra usou cianureto, famoso durante a 2.ª Guerra Mundial porque dava fim rápido à vida de nazistas capturados por americanos e ingleses. Com isso, eles evitavam a revelação de posições e planos através de torturas.
Já o formicida até hoje é altamente mortal se ingerido por humanos, provocando morte rápida. Nos anos 50, o Formicida Tatu era uma das poucas marcas disponíveis no mercado.
O titular da DIG chama a atenção para as características dos suicidas. Dos oito mortos, apenas uma vítima era mulher. Na verdade, uma jovem de 22 anos. Os demais, todos homens, tinham idade que variavam de 17 a 50 anos.
Na relação de homicídios praticados em 1953, a polícia registrou cinco casos. Desses, apenas dois foram praticados por arma de fogo. Os outros três tiveram como instrumentos tijolo e faca.
“Quase todos os crimes dessa época estavam relacionados à embriaguez na zona do meretrício e vingança. A idade era mais alta. Hoje, o maior número de casos de homicídio está na faixa de 17 a 25 anos”, relata.
O delegado observa que a mudança do mundo nos últimos 50 anos também interferiu de forma direta na alteração das características dos crimes praticados. “Hoje se tem informação em tempo real. Isso reflete no mundo da criminalidade.”
Cardia lembra que não precisa ir muito longe para perceber a mudança de comportamento. “Na quela época, o autor de um homicídio ficava arrasado. Geralmente não se conseguia interrogá-lo após o crime. Ele se arrependia e seu comportamento emocional ficava muito afetado”, conta.
Já nos dias de hoje, a situação é oposta. “O crime está banalizado. Você prende a pessoa que o praticou, geralmente adolescente, e ele está rindo. Chega a debochar da vítima. Não há senso de valor social”, diz.
Cardia mostra que no relatório de 1953 não há registros de crimes envolvendo drogas. “Hoje a maioria dos homicídios está relacionada a entorpecentes.”
Avanço
Mas não foram só as formas de praticar crimes que evoluiram. A Polícia Civil, com o advento da tecnologia, também avançou na apuração para determinar a prisão de autor ou autores.
“Há 30 anos, a investigação partia do criminoso para o crime. Se havia um suspeito, ele era preso. E muitas vezes confessava o crime sob pressão. Havia denúncia de torturas. As provas chegavam até os autos viciadas. Hoje, se parte do local do crime para a autoria. A Polícia Técnica vai até o local do crime para levantar os vestígios. É feito um exame aprofundado para apontar um suspeito”, explica.
O titular da DIG comenta que com a Constituição de 1988 as polícias se modernizaram. “Começou a montagem da inteligência, novas técnicas passaram a ser empregadas nas investigações. Com isso, a polícia chega ao criminoso quando há provas robustas contra ele. Pede-se a prisão temporária. É um trabalho legal”, afirma.