O Haiti tem uma história conturbada e violenta. A ilha da qual faz parte, São Domingos, era habitada por índios que foram dizimados logo nos primeiros anos de ocupação. Para trabalhar na cultura da cana-de-açúcar, foram trazidos à força para a América negros africanos na famigerada diáspora que comprometeu o desenvolvimento normal do continente negro.
Trabalhando em jornadas absurdas e sendo tratados como coisas, sobrevivem através da astúcia, trocando com seus senhores cultura, música e religião.
Apesar de viver à beira do abismo, o Haiti foi o primeiro país da América Latina a conseguir a sua independência sob a liderança de Toussaint LOuverture, negro, ex-escravo, de idéias iluministas e republicanas em 1801. Posteriormente, é invadido por Napoleão, que aprisiona LOuverture levando-o para a França, onde morreu dois anos mais tarde. A independência é confirmada por outro ex-escravo, Dessalines, em 1804.
Livres, a população de ex-escravos executa a maioria da população branca e em seu imaginário de povo oprimido, ser livre era o não-trabalho. Passam então a destruir as lavouras de cana-de-açúcar e de café, comprometendo o seu futuro como recém libertada.
Hoje, a maior tragédia do Haiti é a intolerância religiosa dos cristãos católicos e protestantes que não aceitam representantes do vodu, religião africana trazida pelos escravos, demonizada por Hollywood e utilizada de forma infamante pelo ditador Papa Doc e seus descendentes. Essa não aceitação de outro credo que não o cristianismo como forma oficial de religião pode levar o Haiti a uma guerra civil sangrenta e longa, de conseqüências trágicas para o sofrido país.
Nesse sentido, o Brasil poderia dar pistas aos haitianos para uma convivência aceitável. Nós temos uma herança de grande religiosidade recebida dos índios e dos negros que engrenou um sincretismo que merece ser imitado e quem sabe estudado em outros lugares do planeta.
Não somos uma democracia racial como alguns apregoavam no passado, nem modelo de civilidade, mas para o bem ou para o mal as nossas religiões convivem, com certa fricção, que algumas vezes gera novas religiões ao invés de mais atrito. (O autor, Fábio Paride Pallotta, é professor de história, graduado em direito, especialista em educação escolar e professor do ensino médio e pré-vestibular)