Tribuna do Leitor

DILTOR OPROMOLLA

José Henrique de Oliveira Godoy
| Tempo de leitura: 4 min

Pouco antes de me afastar da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, para começar minha atividade profissional em Bauru, encontrei-me por acaso, em frente ao prédio onde hoje se situa a Unidade de Emergência daquela escola, com o professor Luiz M. Bechelli, voltando de suas sessões sabatinas de tênis na Recreativa. O então decano mestre, que perguntava sobre meu sumiço das sessões didáticas de Dermatologia, surpreendeu-se em como o tempo passara e eu já não era seu aluno, médico recém-formado e que já estaria brevemente de endereço novo na “Capital da Terra Branca”. De pronto recomendou-se memorizar o nome de Diltor Opromolla, “grande leprologista e responsável pelo melhor serviço de investigação científica em lepra no Brasil”(era assim que à época nos referíamos ao Mal de Hansen.

Imediatamente pus-me a recordar nossas sessões de aulas práticas entremeadas com teoria sobre a então terrível doença. Reconheci com uma certa familiariedade o nome do Sanatório Aimorés de Bauru entre suas palavras, nas conversas que tínhamos com os hansenianos nos corredores do Ambulatório das “Paineiras” (como denominávamos a quadra onde hoje se situa o Centro de Convenções de Ribeirão Preto).

Recebi seus cumprimentos e nunca mais o vi...

Demorou pouco mais de um ano para que eu conhecesse pessoalmente a figura do Dr. Diltor... Foi no início de 1982, quando junto com minha esposa, que fazia residência de Clínica no Sanatório, comecei a freqüentar as reuniões científicas dos sábados, organizadas pelo pessoal do Centro de pesquisa.

As reuniões dirigidas por ele eram altamente instigantes e não ficavam nada a dever aos debates científicos aos quais me acostumara nos anfiteatros do Hospital Velho, nas salinhas do Hospital Novo, nos quase 8 anos e meio que permaneci em Ribeirão. Ao contrário, por convergir gente de tão distinta formação, dermatologistas, reumatologistas, anátomo-patologistas gastroenterologistas, patologistas clínicos, fisiatras, ortopedistas e tantos outros especialistas, que a memória traiçoeira possa ter ajudado a ocultar, criava delicioso ambiente científico que nos alentava semanalmente a prosseguir aprimorando nossos conhecimentos médicos, nossas técnicas...

Diltor (assim me permitiu que o tratasse, ao mesmo tempo que me tratava pelo meu apelido familiar), traía sua expressão severa emoldurada por óculos sempre maiores que os limites laterais de sua face, com um sorriso que nunca deixei de vê-lo distribuir entre os amigos, entre os funcionários do Instituto, entre os pacientes internados.

Falamos bastante, uns anos atrás, ao telefone, quando conduzi, junto como uma de suas orientadas de Pós-Graduação, dra. Rose Bacharelli, parte de um belo projeto científico. Em toda as situações em que entabulavámos nossas conversas, sempre sobressairam seu entusiasmo, seu estímulo, seu espírito de liderança, seu otimismo.

Nunca seria capaz de listar todos os seus feitos, toda a sua produção científica, todos as suas láureas e posições em sociedades médicas nacionais e internacionais e para isso convoco aqui as memórias fantásticas dos doutores Raul Negrão Fleury e Antonio Lázaro Valeriani Marques, que acompanharam sua trajetória de médico e mestre desde os anos da Faculdade em Sorocaba.

Exigi-me, porém, apesar da dor que me aperta, o feito de comunicar nossa cidade da perda de um de seus mais dedicados e ilustres cidadãos. Nossa comuna precisa saber que quase tudo o que se fez para resgatar a dignidade e a cidadania de nossos irmãos hansenianos no mundo tem um pouco da marca do Instituto Lauro de Souza Lima e muito das aguçadas observações e críticas de Diltor.

E ele foi embora como, imagino, sempre o quis. Guerreiro que exigia a honra de morrer em plena batalha, Diltor viajou a trabalho até alguns dias antes de nos deixar. Permita-nos sua família que compartilhemos de sua orfandade. Sentiremos sua falta como amigo, como modelo de ética, compaixão e ciência. Esperemos que encontre no infinito com os nossos saudosos dr. Osvaldo Cruz e sr. Silas e que juntos possam inspirar nossos sonhos, soprando-nos as fórmulas que nos estimulem a mitigar o sofrimento dos milenarmente estigmatizados por uma doença que encontrou em Bauru algumas das mais esperançosas luzes.

Quando a notícia me alcançou, na quarta-feira pela manhã, achei que a pancada era forte demais para que eu trabalhasse nesse dia. Fechei os olhos, lembrei-me novamente de sua expressão e sentindo-o como a um companheiro tombado ao meu lado na trincheira, fui buscar nu fundo da memória um trecho de uma canção inglesa de batalha que assim dizia: “Reze ao Senhor e passe-me a munição. (José Henrique de Oliveira Godoy - presidente da Associação Paulista de Medicina - Regional Bauru)

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