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Dermatologia mundial perde Opromolla

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 5 min

O médico dermatologista e pesquisador do Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL) Diltor Vladimir Araújo Opromolla morreu na madrugada ontem em Bauru, aos 70 anos, vítima de uma insuficiência cardíaca. Opromolla sofreu o ataque por volta das 5h30, quando caiu no banheiro de sua residência, onde chegou a ser socorrido por alguns colegas médicos.

Apesar de alguns problemas de saúde já diagnosticados, o clima de tristeza, surpresa e inconformismo era evidente no velório realizado ontem em Bauru, até as 17h. Depois das homenagens, o corpo do pesquisador seguiu para Sorocaba, onde será sepultado hoje por volta das 11h. A decisão por esta cidade se deu pelo fato de ter sido lá o local onde médico conheceu sua esposa, Maria Cecília Rosa Araújo Opromolla, e onde vive grande parte de seus familiares.

Opromolla era considerado um dos maiores expoentes mundiais no combate e controle da hanseníase, condição que se consolidou, segundo o diretor do ILSL, Marcos Virmont, a partir de seu pioneirismo em adotar o uso da rifampicina, um antibiótico empregado até então no combate da meningite, ao tratamento à hanseníase. “Até hoje, (a rifampicina) é a droga mais eficaz e que mais cura esta doença. E isto se deu a partir do trabalho pioneiro do professor Opromolla”, destaca.

Virmont também destaca a vocação de “professor” do colega. “Ele (Opromolla) formou quantidade enorme de pessoas que hoje ocupam cargos de extrema relevância dentro da especialidade de dermatologia no Brasil e no mundo inteiro, principalmente na área da hanseníase”, lembra. A opinião é compartilhada pelo médico dermatologista Cláudio Tonello, parceiro de Opromolla há 36 anos no próprio ILSL e também num consultório que mantinham na cidade. “Atualmente, temos em Bauru praticamente 200 médicos dermatologistas que foram formados no ILSL”, ressalta

A fama de “professor” do médico bauruense é reforçada pelo chefe do Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Botucatu, Sílvio Marques. “Para nós (de Botucatu), Opromolla sempre foi um grande colaborador, recebendo há mais de 30 anos nossos alunos interessados no ensino da hansenologia”, diz Marques.

O dermatologista destaca ainda a preocupação do bauruense com o bem-estar dos hansenianos, até então tratados como “malditos” e isolados em asilos-colônias. “Ele será sempre uma pessoa para ser lembrada e reverenciada pela dedicação de toda sua vida à ciência, à pesquisa e ao paciente. Ele tinha uma visão toda própria de cuidado humanístico com os pacientes

Trabalho incansável

Mesmo tendo o coração enfraquecido por uma miocardiopatia e ainda sofrendo os efeitos da quimioterapia aplicada por conta da retirada de um câncer no estômago, no início deste ano, Diltor Opromolla mantinha o mesmo ritmo de trabalho que marcou toda sua vida e que pode ser conferido pelos números superlativos de sua produção médica e científica.

O currículo do pesquisador no site do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostra que Opromolla teve 231 trabalhos publicados em periódicos (jornais e revistas) e eventos, participou de mais de 300 congressos, simpósios e seminários, no Brasil e no mundo, e ainda orientou vários trabalhos de mestrado e doutorado - cinco deles ainda estavam em andamento.

A rotina frenética não cessou nem mesmo poucas semanas antes de sua morte. Segundo Juliana Amaral, sua secretária particular no ILSL há dez anos, Opromolla recentemente percorreu uma “maratona” de eventos pelo Brasil, tendo passado por São Paulo para uma aula terapêutica, pelo Acre, onde proferiu uma palestra, terminando em Brasília, no último dia 23, onde foi homenageado pelo Ministério da Saúde durante a 4.ª edição da Mostra Nacional de Experiências Bem-sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (Expoepi) como um dos símbolos do combate à hanseníase no mundo.

Na ocasião, o pesquisador do ILSL recebeu uma placa das mãos do médico ginecologista Horácio Toro Ocampo, representante no Brasil da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), órgão que atua como escritório regional para as Américas da Organização Mundial de Saúde (OMS). A secretária particular lembra que, ainda anteontem, Opromolla trabalhou normalmente no instituto na parte da manhã, quando enviou quatro artigos científicos para publicação no Exterior.

Além do cargo que ocupava no ILSL - coordenação da residência médica -, Opromolla também foi consultor da Opas e da OMS, presidente da Associação Brasileira de hansenologia, do Colégio de Hansenologia dos países endêmicos e da International Leprosy Association.

Além da esposa, Opromolla deixa quatro filhos com idades entre 43 e 29 anos, e duas netas. A mais nova delas, de 21 anos, promete seguir a carreira de médico do avô - cursa o 3.º ano na Escola Paulista de Medicina.

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Pesquisador transforma leprosário em instituto

Graduado pela Pontifícia Uiversidade Católica (PUC) de São Paulo em 1957, Diltor Opromolla chegou a Bauru no ano seguinte para trabalhar no então Sanatório Aimorés, um complexo destinado somente a isolar os portadores de hanseníase, doença conhecida popularmente como lepra.

O diretor do hoje Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL), Marcos Virmont, ressalta como grande mérito de Opromolla o fato dele ter transformado um antigo leprosário num centro de excelência em pesquisa, numa referência à trajetória do próprio ILSL, que começou em 1933 como o Asilo-Colônia Aymorés, passou a ser Sanatório Aimorés em 1949, virou Hospital Aimorés de Bauru em 1969 e ganhou o nome de “Lauro de Souza de Lima” em 1974.

Mas o trabalho de médicos e funcionários, sob a coordenação decidida de Opromolla, garantiu as condições para que, em 1989, o então hospital ganhasse o status de instituto de pesquisa. Com isso, passou a ser considerado centro de referência e subordinado à Coordenadoria dos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Na década de 70, o instituto passou a oferecer residência médica na área de dermatologia, reconhecida pelo Ministério da Saúde. As investigações e pesquisas que Opromolla realizou sobre a hanseníase, porém, ampliaram o reconhecimento do ILSL para o Exterior e projetaram seu nome por todo o mundo. (SP)

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