Política

Destino da estação será rediscutido

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

O coordenador do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Bauru, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Roque Ferreira, admitiu ontem que a entidade está disposta a rediscutir o destino da estação da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), hoje penhorada para garantia de pagamento de uma dívida trabalhista com ferroviários.

Na semana passada, os ministérios das Cidades e dos Transportes e a Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) anunciaram que o governo está estudando a elaboração de convênios com as prefeituras de municípios interessados em assumir os imóveis não-operacionais que restaram do processo de privatização da estatal.

Há mais de dois anos, o sindicato ferroviário aguarda o desfecho da negociação da estação com o Grupo Marca, que tinha interesse em transformar o prédio num shopping de compras, com opções para gastronomia e lazer. Mas o avanço do acordo esfriou e há mais de um ano os representantes do grupo não tocam mais no assunto.

O desinteresse dos empresários na aquisição do prédio e a notícia de que o governo pretende repassar imóveis da RFFSA a municípios são fatores que levaram Roque Ferreira a sugerir a rediscussão do destino da estação.

“O ideal seria que o governo federal pagasse a dívida trabalhista que tem com os ferroviários da ex-Superintendência Regional de Bauru da Rede Ferroviária e negociasse o repasse da estação à prefeitura”, sugere.

O dirigente sindical também não descarta uma oferta por parte da administração municipal, o que é mais difícil devido à fase financeira crítica pela qual passa o município. Ontem, o sindicalista estava em Brasília, onde participou de uma manifestação contra a liquidação da RFFSA. Na avaliação dele, os prédios abandonados da estatal ferroviária podem render recursos para a sua própria manutenção.

No início da gestão do prefeito Nilson Costa, debateu-se a possibilidade do município adquirir a estação para acomodar parte das instalações da prefeitura. O Palácio das Cerejeiras já está com espaço estrangulado para abrigar as repartições públicas do município. A iniciativa também não avançou.

Oficinas

Além da estação central da NOB, a administração municipal poderá reivindicar também junto ao Ministério das Cidades e dos Transportes os prédios das antigas oficinas da ferrovia, localizados ao longo da Vila Falcão.

Construídas em 1921, boa parte dessas instalações está desativada desde a privatização da Malha Oeste da RFFSA (Bauru-Corumbá), em 1996. São imensos galpões que antes acomodavam setores de marcenaria, máquinas, fundição para confecção de rodeiros e equipamentos ferroviários, como vagões de cargas e de passageiros.

Por falta de manutenção adequada, algumas paredes ameaçam desabar e por isso estão escoradas por trilhos. O telhado está bastante danificado e a infiltração invadiu vigas de madeira e de concreto.

Na região de Bauru, algumas prefeituras não esperaram a manifestação da RFFSA para se apossar de estações e prédios anexos. É o caso de Botucatu, que desde 2001 ocupou à revelia a gare da antiga Estrada de Ferro Sorocabana (EFS).

Em Marília, ocorreu situação semelhante. O prefeito Abelardo Camarinha aproveitou a estação ferroviária, também abandonada, para transformá-la em terminal de ônibus urbanos. Em Jaú, a gare da antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro virou abrigo para 250 jovens, que desenvolvem projetos culturais.

O prefeito eleito Tuga Angerami (PDT) foi contatado, através de sua assessoria de imprensa, para opinar sobre seus projetos em relação ao patrimônio ferroviário abandonado de Bauru e se pretende acionar os ministérios da Cidade e dos Transportes para viabilizar o convênio com a RFFSA. O retorno, porém, não ocorreu.

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Cultura já fez cadastro do município no ministério

O secretário de Cultura, Sérgio Losnak, informou ontem que a Prefeitura de Bauru já está cadastrada no programa criado pelo Ministério das Cidades que pretende viabilizar o repasse de imóveis da Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) ao poder público municipal. Segundo ele, o registro foi feito há mais de três meses.

Além da estação central da antiga Noroeste do Brasil (NOB), também foram listadas as gares da ex-Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), localizada na extensão da avenida Pedro de Toledo; a da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, no início da rua Rio Branco; a de Curuçá, na Vila Dutra, e a de Val de Palmas e Tibiriçá, na linha tronco da Ferrovia Novoeste S/A.

As oficinas da NOB que compõem o cenário da Vila Falcão também compuseram o processo encaminhado ao Ministério das Cidades. “Mas desde que nos cadastramos, ainda não obtivemos qualquer resposta”, comenta Losnak, que também preside o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Bauru (Codepac).

Ele lembra que o Estatuto das Cidades já prevê a ocupação de prédios e espaços públicos abandonados. “É preciso, porém, que isso ocorra de maneira ordenada”, defende.

Para o secretário, os galpões das oficinas da NOB podem servir para abrigar um centro de convenções. “E pelo visto não há necessidade de altos investimentos”, comenta.

O professor Nilson Ghirardelo, do curso de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro do Codepac, está entusiasmado com a possibilidade de o município vir a agregar os prédios da RFFSA.

“O convênio chegará numa boa hora porque as prefeituras de todo o Brasil têm demandas que podem ser resolvidas com o repasse desses imóveis. São edifícios significativos que precisam ser preservados e transformados em áreas de lazer e esportivas”, recomenda. “Infelizmente, esses prédios hoje são áreas de risco.” (GD)

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