Se ressuscitasse hoje, Dom Pedro II sentiria o alívio de quem desperta de um pesadelo, convencido de que Deodoro não havia proclamado a República. Amante das artes e das ciências, nosso imperador ficaria deslumbrado com o Brasil ao seu redor, depois de seu sono de 115 anos. E ficaria tranqüilo ao perceber que, no resto, pouco havia mudado, apenas crescido.
No lugar dos barões, duques e viscondes que ele havia nomeado ao longo de 50 anos, ele descobriria que agora eram excelências e doutores que compunham a aristocracia brasileira. Haviam mudado os títulos, a quantidade, mas eles continuam separados do povo. No lugar de escravos correndo atrás das carruagens, ele veria meninos pedindo esmolas nos sinais de trânsito. Apartados dos que iam dentro dos carros, isolados, distantes.
Ele notaria que, ao redor de sua moderna carruagem, sem cavalos e com o estranho frio do ar condicionado, os negros pareciam ter perdido o olhar de escravo, mas continuavam pobres, diferentes, separados. Dom Pedro II logo perceberia que havia terminado o clima de revoltas nas províncias. Mas no caminho de um lugar ao outro, no próprio Rio, ele ouviria tiros assustadores, bem perto.
Ao ler os relatórios de seus ministros, ele saberia o quanto havia crescido o número de crianças nas escolas. Surpreso, porém, veria que nenhuma tinha a qualidade de seu colégio Pedro II, que ele deixara antes de dormir, em 1889. Ficaria espantado com o triste estado das edificações das escolas de hoje, com a queda de prestígio dos professores, não compreenderia como era possível que crianças chegassem à quarta série sem sequer saberem ler. Acima de tudo, não entenderia como podia ter aumentado o número de adultos analfabetos, que havia passado de 13 para 15 milhões.
Se viajasse pelo Nordeste, ele veria que ainda era preciso vender sua coroa para atender às necessidades dos pobres nordestinos do semi-árido, porque a ajuda que eles recebiam agora continuava insuficiente. E logo saberia que nada de novo tinha sido proposto para resolver o problema desse povo. E que a situação do nordestino continuava exatamente a mesma, apesar das maravilhas dos prédios de agora. Pensaria até que seu sono tinha sido curto, porque ainda estudavam como levar adiante seus planos de desviar o rio São Francisco.
Veria também que tinha sido um pesadelo o medo que sentira dos republicanos, quando propuseram acabar com os privilégios dos aristocratas. Ficaria aliviado, pois os nobres ainda mantinham foro privilegiado e prisões especiais sempre que cometessem crimes, bastando para isso possuir um título de nobreza emitido por uma universidade.
Dom Pedro veria ainda que as casas dos nobres e as festas dos nobres continuavam igualmente suntuosas, deslumbrantes, distantes do povo. Eram mesmo maiores, possuíam banheiros, ar condicionado e uma quantidade de aparelhos que mesmo ele, curioso cientista, não entendia bem.
Ao ler os jornais destes dias, ele certamente riria ao lembrar-se de quando, nos idos de 1870, tinha perguntado a seu amigo Paraná para que serviam os partidos, se depois das eleições eles ficavam todos iguais. Perceberia tranqüilizado que os documentos sobre os crimes cometidos na guerra do Paraguai, que ele não entendia bem porque chamavam agora de Araguaia, continuavam guardados, mantidos secretos, para não comprometerem o exército de Caxias.
No seu desejo de fazer do Brasil um país civilizado, ele perceberia que o pesadelo tinha sido acordar e descobrir que o Brasil continuava o mesmo. (O autor, Cristovam Buarque, é senador pelo PT)