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Cultura e Sonho para uma vida real


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“Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que arte”. Valho-me das palavras do escritor alemão Johann Wolfgang Goethe para ressaltar o extraordinário poder da cultura na vida do ser humano. Por meio dela é possível escapar das mesquinharias do mundo real, mas também atuar como um cidadão que exprime seus sentimentos, idéias e angústias sobre o meio em que vive. Um jovem que não tem vida cultural se exclui não apenas do que de mais belo a sua sociedade e a humanidade produziram, mas, torna-se um não-cidadão. O acesso à arte deve ter início logo na infância e a escola tem um papel primordial na formação cultural de crianças e jovens. Bertrand Russel afirmava, em ensaios da década de 30, que a escola deve educar jovens não apenas para o trabalho, mas também para o ócio, ou seja, para um uso construtivo do tempo livre.

A família tem também um importante papel na formação cultural das crianças, o que infelizmente traz perspectivas de reprodução de um ciclo de acesso cultural restrito ao que os meios de comunicação de massa oferecem como cultura legítima. Além disso, se os pais passam às crianças uma imagem de que é penoso ir a concertos, visitar museus e ler livros, por exemplo, seus filhos tenderão a associar o prazer estético com obrigações desagradáveis, a serem evitadas. Os pais, quando possível (as estatísticas nem sempre são favoráveis a este respeito, apenas 26% dos adultos, segundo dados do Instituto Paulo Montenegro, são capazes de ler e entender um livro) devem ser vistos lendo livros por prazer, ao invés de serem flagrados por horas na frente da TV. Os diferentes estilos e manifestações artísticas devem ser apresentados aos jovens, por isso a importância de ir a concertos ou peças teatrais, apresentações música erudita e mesmo rock ou rap.

Um jovem que recebe uma arma do narcotraficante e tem a possibilidade de trabalhar para ele, adquire prestígio em sua favela, notoriedade e a admiração de seus pares, ou seja, tudo o que um adolescente tende a ambicionar. Ora, se dermos a esse jovem, além de educação e um emprego, um violão ou a possibilidade de ser ator em um grupo de teatro em sua comunidade, ele também ganha notoriedade e admiração e foge de um mundo sem perspectivas de futuro. Além da formação de cidadãos independentes, de pessoas capazes de usufruir seu tempo livre de forma interessante e não agressiva, a cultura ajuda a capacitar profissionais. O mercado de trabalho tem valorizado cada vez mais pessoas capazes de trabalhar em grupo, de estar permanentemente atualizada, aptas a utilizar novas tecnologias e, sobretudo, capazes de identificar os problemas e pensar de forma inovadora em soluções. E isso demanda conhecimentos que transcendem os conteúdos específicos de cada ramo profissional. Demanda habilidade de abstração, de relacionar conhecimentos de diferentes campos, de recorrer a símbolos e processos de identificação. A arte proporciona, nesse sentido, um terreno fértil para que estas capacidades floresçam.

A autora, Claudia Costin, foi ministra da Administração e Reforma do Estado e é atualmente Secretária de Estado da Cultura

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