Saúde

Pele é órgão de limites

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Para a psicóloga Regina Furigo, a pele é um órgão responsável pela delimitação do ser humano. Alterações nesse órgão podem estar indicando uma necessidade inconsciente de impor limites para algo (um sofrimento, um trauma mais grave) ou alguém.

“Hoje em dia, não se pode pensar em doenças sem focar o estado emocional do doente. Por um lado, porque toda doença fragiliza o estado emocional, a pessoa se sente incomodada, constrangida, enfraquecida. Por outro, porque muitas doenças são um recado do inconsciente e do corpo de que algo no psicológico não vai bem”, afirma.

Nesse sentido, segundo ela, uma manifestação na pele pode indicar a necessidade psicológica de alguém de estabelecer limites, dizer não para algo que o está invadindo. Ou, ao contrário de romper barreiras e avançar em busca de mudanças.

“O ser humano precisa expressar suas emoções, suas vivências, seus sentimentos. Temos de chorar quando sentimos vontade, rir, desabafar. E, muitas vezes, reprimimos isso por imposições pessoais, sociais ou profissionais. E a pele, de repente, resolve colocar tudo isso para fora. É quando digo, por exemplo, que estou me coçando de raiva. Ou quando fico vermelha porque sinto raiva, vergonha, timidez”, exemplifica.

“Se você pensar bem, vai ver que emoções e pele têm tudo a ver. A lesão pode ser uma forma que o organismo encontrou de expressar alguma coisa, de tornar uma emoção visível, de modo que fique mais fácil solucionar o problema”, afirma.

Ela adverte que, antes de manifestar o problema no corpo, o organismo dá muitos sinais. “Imagine o estresse. Você sente cansaço, desânimo, sono, dor de cabeça e não dá importância. O corpo vai sinalizando, sinalizando... de repente o cabelo começa a cair ou você tem um surto psoriático. Essas coisas que aparecem no corpo sempre são um grito mais alto do organismo para coisas que o indivíduo, conscientemente, ainda não percebeu ou não deu importância”, arremata.

Furigo destaca que a pele é o maior e um dos mais importantes órgãos do corpo humano. E por ser um órgão externo, está sujeito a uma infinidade de alterações, desde as sensações boas - o toque, o carinho - até as ruins. “Então, ela sempre tem muito a ‘dizer’”, garante.

Eppiderm

Ogrupo de Estudos e Pesquisas Psicológicas Integradas à Dermatologia (Eppiderm) foi criado em 2000 por um pequeno grupo de profissionais interessados no assunto. O grupo, hoje com aproximadamente 25 profissionais das mais diversas áreas, é coordenado pelo dermatologista Antônio Carlos Martelli, pelas psicólogas Regina Furigo e Helenice Azevedo e pela jornalista e mitóloga Cristina Franciscato.

“Por que uma mitóloga? Porque as lesões de pele existem desde a Antigüidade, elas aparecem nos heróis e o estudo dos mitos nos ajudam a entender muitas dessas doenças”, explica Furigo. Ela é diretora-presidente do Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru, que “abriga” o Eppiderm.

O grupo se reúne uma vez por mês para discutir casos clínicos e buscar um diagnóstico mais aprofundado de cada caso. â€œÉ uma equipe multidisciplinar, também com farmacêuticos e endocrinologistas. Hoje, estamos tão especializados, que chegamos cada vez mais à conclusão de que o bom tratamento requer uma atuação interdisciplinar”, comenta Furigo.

Segundo Martelli, uma das maiores dificuldades para o tratamento das lesões dermatológicas com caráter emocional é o preconceito. “A maioria desses pacientes rejeita totalmente a idéia de fazer uma terapia, tomarumremédio antidepressivo, porque ainda vivem o estigma de que psiquiatra e psicólogo só tratam loucos. E sabemos que não é nada disso. Mas vencer esse preconceito é uma das nossas maiores dificuldades”, lamenta.

• Serviço

Outras informações sobre o grupo Eppiderm podem ser obtidas pelos telefones (14) 3223-2326 ou ( 1 4 ) 3224-2633.

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