Tribuna do Leitor

UM HOMEM

Roberto L. Maringoni
| Tempo de leitura: 3 min

Dia 15, quarta-feira, logo pela manhã, fui surpreendido pela triste notícia do falecimento do inesquecível e querido amigo dr. Opromolla, o que deixou um enorme vácuo nos corações de todos os seus amigos.

Muitos colegas, admiradores e clientes já se manifestaram sobre sua obra e sobre o trabalho incansável em benefício dos pacientes da tão incompreendida doença à qual dedicou toda sua vida e o melhor dos seus esforços.

Desejo, eu também, juntar-me a tantos e deixar um pequeno comentário muito pessoal a respeito desse colega tão querido.

Na verdade, quero apenas lembrar o amigo de tantos anos repetindo a pitoresca frase do caro e saudoso companheiro dr. Antônio Gabriel Atta: o Opromolla é um dos santos leigos de minha devoção.

Chegamos juntos em Bauru no princípio de 1958. Ambos muito jovens, recém-formados e entusiasmados: poderia até dizer romanticamente entusiasmados. Por coincidência, abrimos nossos consultórios numa mesma casa, no quarteirão 7 da Rodrigues Alves. E desde aquele início, já distante, pude perceber toda a força interior com que era movido e que se manteve inalterada até o último instante da sua vida. Sólidos laços de amizade nos uniram e, em nossas conversas diárias de médicos iniciantes, aprendi a admirar cada vez mais seus dotes intelectuais e morais e suas grandes qualificações profissionais e o conhecimento quase enciclopédico sobre a hanseníase.

Confrontado com a dura realidade da vida, seu entusiasmo não arrefeceu. Continuou interessado na profissão que escolhera, dedicando-se com entusiasmo e dignidade aos seus projetos, pesquisas e conquistas. Logo transformou-se em um líder inconteste entre jovens colegas de grande valor que soube reunir e aglutinar à sua volta.

Apesar de todo o trabalho que desenvolvia no antigo Sanatório Aimorés, não se esqueceu de outros deserdados pois, durante muitos anos, dedicou, gratuitamente, todo o seu talento médico ao cuidado dos internados na benemérita instituição dirigida pelo sr. Sebastião Paiva.

Com o exemplo de tanta dedicação conseguiu que muitos outros médicos também lá trabalhassem. Seu renome, sua reputação e o seu sucesso no Brasil e fora dele, agraciado e reconhecido por entidades científicas de todo o mundo, recebido por personalidades importantes como o Papa João XXIII e pelo Cardeal Montini, depois Papa Paulo VI, nada disto modificou sua simplicidade, nunca abandonando sua maneira gentil, humilde, polida e extremamente cativante, traços maiores de sua brilhante personalidade.

Gostaria de dizer mais sobre ele mas não me sinto capaz. É difícil resumir em poucas palavras uma vida tão exemplar. Preciso socorrer-me de um poeta. Eles já disseram quase tudo.

Quero aproveitar-me das palavras inspiradas de “Rudyard Kipling” na parte final de seu imortal poema “If” na bela tradução de Guilherme de Almeida:

Se és capaz, de entre a plebe, não te corromperes

E, entre reis, não perder a naturalidade,

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes;

Se a todos puderes ser de alguma utilidade;

E se és capaz de dar, segundo por segundo,

Ao minuto fatal todo o valor e brilho,

Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,

E, - o que é muito mais - és um homem, meu filho!

Até um dia, caríssimo companheiro! (Roberto L. Maringoni)

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