Dia 15, quarta-feira, logo pela manhã, fui surpreendido pela triste notícia do falecimento do inesquecível e querido amigo dr. Opromolla, o que deixou um enorme vácuo nos corações de todos os seus amigos.
Muitos colegas, admiradores e clientes já se manifestaram sobre sua obra e sobre o trabalho incansável em benefício dos pacientes da tão incompreendida doença à qual dedicou toda sua vida e o melhor dos seus esforços.
Desejo, eu também, juntar-me a tantos e deixar um pequeno comentário muito pessoal a respeito desse colega tão querido.
Na verdade, quero apenas lembrar o amigo de tantos anos repetindo a pitoresca frase do caro e saudoso companheiro dr. Antônio Gabriel Atta: o Opromolla é um dos santos leigos de minha devoção.
Chegamos juntos em Bauru no princípio de 1958. Ambos muito jovens, recém-formados e entusiasmados: poderia até dizer romanticamente entusiasmados. Por coincidência, abrimos nossos consultórios numa mesma casa, no quarteirão 7 da Rodrigues Alves. E desde aquele início, já distante, pude perceber toda a força interior com que era movido e que se manteve inalterada até o último instante da sua vida. Sólidos laços de amizade nos uniram e, em nossas conversas diárias de médicos iniciantes, aprendi a admirar cada vez mais seus dotes intelectuais e morais e suas grandes qualificações profissionais e o conhecimento quase enciclopédico sobre a hanseníase.
Confrontado com a dura realidade da vida, seu entusiasmo não arrefeceu. Continuou interessado na profissão que escolhera, dedicando-se com entusiasmo e dignidade aos seus projetos, pesquisas e conquistas. Logo transformou-se em um líder inconteste entre jovens colegas de grande valor que soube reunir e aglutinar à sua volta.
Apesar de todo o trabalho que desenvolvia no antigo Sanatório Aimorés, não se esqueceu de outros deserdados pois, durante muitos anos, dedicou, gratuitamente, todo o seu talento médico ao cuidado dos internados na benemérita instituição dirigida pelo sr. Sebastião Paiva.
Com o exemplo de tanta dedicação conseguiu que muitos outros médicos também lá trabalhassem. Seu renome, sua reputação e o seu sucesso no Brasil e fora dele, agraciado e reconhecido por entidades científicas de todo o mundo, recebido por personalidades importantes como o Papa João XXIII e pelo Cardeal Montini, depois Papa Paulo VI, nada disto modificou sua simplicidade, nunca abandonando sua maneira gentil, humilde, polida e extremamente cativante, traços maiores de sua brilhante personalidade.
Gostaria de dizer mais sobre ele mas não me sinto capaz. É difícil resumir em poucas palavras uma vida tão exemplar. Preciso socorrer-me de um poeta. Eles já disseram quase tudo.
Quero aproveitar-me das palavras inspiradas de “Rudyard Kipling” na parte final de seu imortal poema “If” na bela tradução de Guilherme de Almeida:
Se és capaz, de entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes;
Se a todos puderes ser de alguma utilidade;
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
E, - o que é muito mais - és um homem, meu filho!
Até um dia, caríssimo companheiro! (Roberto L. Maringoni)