Uma ação surpresa desencadeada ontem por órgãos da Prefeitura de Bauru, pela Polícia Militar e pelos Conselhos Comunitários de Segurança (Conseg) identificou mais 600 bovinos na área urbana do município, nas imediações do Distrito Industrial, Jardim Marambá e Jardim Octávio Rasi. Em duas semanas, mais de mil animais já foram localizados pela força-tarefa, embora a criação de animais de grande porte fora da área rural seja proibida por lei.
“O cerco aos bois” foi deflagrado a pedido dos Consegs, que motivaram a ação para coibir a incidência de ocorrências de trânsito provocadas por animais soltos nas ruas. Somente no último ano foram registrados 60 acidentes, apontam dados do Conseg Sudeste.
“A situação começou a atingir um nível preocupante, que estava fugindo ao controle”, comenta o chefe de seção do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), o veterinário José Rodrigues Gonçalves Neto.
Ele ressalta o perigo que as criações representam para saúde pública. As fezes animais, por exemplo, contribuem no aumento dos casos de leishmaniose, já que o mosquito palha (transmissor da doença) se prolifera em material em decomposição.
“Os animais ainda podem provocar uma série de zoonoses, como a brucelose (moléstia transmitida por bactéria que pode provocar infertilidade no homem e aborto na mulher) e tuberculose”, diz Neto.
Para ele, o problema só será resolvido quando as pessoas deixarem de consumir leite e carne de boi, leitão, cabrito e carneiro sem inspeção, normalmente acondicionados em condições precárias de higiene.
“A pessoa pode achar que está tendo vantagem em pagar mais barato pela carne, mas não sabe o que está consumindo. É perigoso. Além da saúde pública, os animais ainda representam um risco para o trânsito”, reitera o comandante da Base Comunitária Sudeste, Willian Padovini.
Por causa das implicações, os criadores da área urbana estão sujeitos à notificação, como os nove visitados ontem. Eles têm 30 dias para transferir os animais para a área rural. Caso não atendam a exigência, podem ser autuados em R$ 491,85 e obrigados a pagar, por animal, R$ 101,58 pela taxa de apreensão. Ontem, ninguém foi autuado. No entanto, foram notificados criadores de suínos e bovinos, sendo que um deles tem de mais de 400 cabeças.
Há uma semana outros 500 bois foram localizados na regiões da Vila Dutra, Nova Esperança, Vila Industrial, além da Quinta da Bela Olinda, onde uma lagoa foi contaminada por fezes animais. “No projeto de revitalização do lagoa, percebemos o problema na região. Eles provocaram a degradação da área”, conclui a engenheira da secretaria municipal do Planejamento, Tania Kamimura Maceri.
Tratamento igualitário
O produtor de leite José Carlos Guilherme, visitado ontem pela força-tarefa, garante que só retirará suas vacas do Jardim Marambá, se todos os produtores da cidade fizerem o mesmo. Ele cobra o tratamento igualitário alegando já ter retirado do mesmo terreno a criação de cabrito, carneiro e porcos, enquanto esses animais são mantidos em outras regiões não-rurais do município.
“Com o ganho da aposentadoria (cerca de R$ 700,00) não dá para manter a família (mulher, sogra, três filhos e dois netos). Trabalho com isso há 33 anos. Meus animais são vacinados e não ficam soltos”, garante. A justificativa é considerada corriqueira pela presidente do Conseg Sudeste, Jacqueline Didier.
“A condição social não pode ser impedimento para o cumprimento da lei”, diz ela. Por compartilhar de posicionamento semelhante, o secretário do Conseg Centro Sul, Pellegrino Bacci Neto, aproveita a oportunidade para reiterar a exploração do trabalho infantil no trato com os animais. (LLF)