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Depois do Natal


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Os sinos agora bimbalham na cabeça da gente. A ressaca do pós-Natal dá a este domingo um gosto de Quarta-Feira de Cinzas. Um vazio, uma angústia, um desejo de fugir para longe porque o Natal se foi. Agora, só no próximo ano. Ingressamos no “tempo comum”, como denomina a Igreja Católica o interregno entre o Natal e a Páscoa. Esse tempo traz na liturgia a cor verde. No Natal celebramos o mistério da Encarnação e na Páscoa o mistério da Redenção, ensinava minha avó. Ela dizia que na ilha de Santa Maria, no Arquipélago dos Açores, de onde tinha imigrado para o Brasil no início do século passado, havia o costume de amarrar nos galhos do pinheiro em frente de casa, os nomes de todas as pessoas importantes na sua vida. Essa estranha árvore de Natal, sem mais adornos que os papelitos dependurados, incluía também os nomes dos desafetos. Tem sua razão de ser. Os inimigos ou aqueles que nos causam algum tipo de sofrimento também são importantes nas nossas vidas. A dor retempera e suas causas, sem que a gente perceba provoca no coração e na mente impulsos que nos levam a mudar de atitudes e procurar novos caminhos. Quase sempre eram as reações que faltavam para nos tirar do marasmo e nos recolocar em trilhos mais produtivos. Ou no mínimo mais gratificantes.

Felizes os antigos que depois do Natal ainda continuavam comemorando até o Dia de Reis. Os Reis Magos somente conseguiram chegar à choupana onde Jesus nasceu 12 dias após o Natal. Assim, a festa prosseguia até 6 de janeiro. Depois é que começavam as brigas para pagar as contas da farra prolongada. Hoje, na sociedade do consumo em que vivemos, basta as antevésperas do Natal para nos pôr em cheque assim que comecem a aparecer os avisos de vencimentos do IPVA, do IPTU, das matrículas escolares.

Parece que em vez do Papai Noel nos mandaram o Papai Noé para nos ensinar a estratégia da Arca - como sobreviver ao dilúvio. Vi operários da prefeitura trabalhando para tapar os buracos abertos pelas enxurradas. Percebo que os comandos se tornaram mais ágeis e massa asfáltica existe à vontade. Pena que a administração esteja acabando. Justamente agora que conseguiram aprender a planejar. Meu compadre costuma dizer que “em casa de Noé tempestade é chuvisco”.

Fico pensando como teria sido o Natal dos outros. Já imaginaram o que passou na cabeça de Viktor Yushchenko, candidato à Presidência na Ucrânia ortodoxa? Num desses bate-papo de vila deram-lhe uma sopa de beterraba envenenada. Seu rosto de galã de cinema virou o reflexo da poção maligna e do estrago produzido no fígado, intestino e pâncreas. Virou uma máscara bexiguenta cheia de tumefações cutâneas, sulcos e reentrâncias. O que mais me impressionou foi a declaração da esposa Kateryna que o beijou ao chegar em casa cansado da longa jornada: “Senti o gosto metálico do veneno nos seus lábios”. Digno de um drama shakespeariano.

Li um estudo sobre o declínio da mortalidade um pouco antes dos feriados importantes, como o Natal, acompanhados por picos nos índices de mortes um pouco depois de dias assim. Depois de examinar 1 milhão e 200 mil prontuários de pacientes terminais, pesquisadores de uma universidade norte-americana descobriram que os pacientes de câncer geralmente sabem quando a morte está próxima e podem ser capazes de afirmar conscientemente sua vontade de viver. Ninguém quer morrer no Natal ou no dia do aniversário. Pelo menos 25% dos doentes terminais conseguem resistir. Natal é vida.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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