O início da ameaça pode estar numa simples sala de bate-papo. Utilizando estratégias diversas de abordagem, pedófilos têm assediado crianças pela Internet e divulgado material de pornografia infantil. A informação é do coordenador da subcomissão temática de enfrentamento à pedofilia e pornografia infantil na Internet, Alexandre Reis, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.
Segundo ele, as crianças que utilizam a rede estão muito vulneráveis a esse tipo de ação, e por isso, os pais devem ter uma conduta vigilante, estando atentos às atividades de seus filhos e orientando-os no acesso virtual.
Para evitar que as crianças caiam nas armadilhas de pedófilos, Reis lembra que algumas medidas preventivas podem ser tomadas. Entre elas, manter o computador em uma área comum da casa para acompanhar o uso feito pela criança; navegar pela rede mundial de computadores com o filho e conhecer suas atividades na rede; instruir a criança a nunca divulgar informações pessoais pela Internet (como nome completo, endereço etc); e não permitir que ela marque, por meio da Internet, encontros presenciais com pessoas desconhecidas.
“Se o pai e a mãe não estão vigilantes, não estão por perto do filho, ele é tranqüilamente uma vítima bem fácil”, conclui a advogada Roseane Miranda, que também integra a subcomissão de combate à pedofilia, como representante da sociedade civil.
Reis destaca que os pedófilos desenvolvem técnicas para ludibriar e assediar virtualmente os menores. Passando-se por uma pessoa de pouca idade, eles podem, por exemplo, enviar imagens de crianças nuas, fazer propostas para as vítimas e perguntar a elas se têm imagens semelhantes para compartilhar.
“De certa forma esse tipo de coisa gera um segredo entre eles. Acaba que a criança não quer falar para os pais que recebeu aquele tipo de imagem. A partir desse segredo, a coisa pode ficar mais perigosa, porque ele pode manipular a criança”, diz. Segundo o coordenador, nessa abordagem é feito todo um jogo de sedução, cuja finalidade é estabelecer contato e até mesmo tentar um encontro presencial com a vítima.
Na avaliação de Reis, os pais precisam conscientizar as crianças sobre os perigos e as formas adequadas de se fazer uso da Internet, resguardando seus filhos de eventuais acessos a materiais impróprios. Esse processo de conscientização inclusive é uma das metas do plano nacional de combate à pedofilia na Internet, que está sendo discutido em nível federal.
“A gente tem informações de que existem assédios, principalmente nos chats (salas de bate-papo) voltados para crianças”, diz o coordenador.
Reis reconhece que, atualmente, muitos pais têm dificuldade para realizar esse acompanhamento porque, ao contrário dos filhos, dispõem de pouco conhecimento sobre as ferramentas da rede. Quando isso ocorre, ele afirma que deve existir um esforço dos pais em “alfabetizar-se” no mundo digital, com o objetivo de orientar seus filhos.
“Principalmente com relação às crianças, a navegação na Internet deve ser uma experiência compartilhada com os pais”, diz. Acompanhada das inúmeras vantagens e facilidades de acesso a informações e serviços, Reis destaca que a Internet trouxe à sociedade novos desafios e problemas. A rede se tornou, por exemplo, o principal meio de divulgação da pedofilia e pornografia infantil. Hoje existem inclusive clubes e associações virtuais de pedófilos. As denúncias mais novas, segundo ele, apontam para a criação de comunidades fechadas (orkuts) de pornografia infantil, utilizadas para a troca e venda de imagens (fotos e vídeos).
“Na Internet, as pessoas acreditam que estão protegidas pelo anonimato. Dessa forma, criou-se um espaço para esse tipo manifestações”, destaca o coordenador.
Roseane afirma que além das salas de bate-papo, consideradas um dos principais locais de aliciamento de menores, alguns pedófilos também abordam crianças via e-mails e blogs. Há inclusive sites que utilizam a fachada de temas infantis para conduzir os usuários a páginas de conteúdos eróticos.
Supervisão cerrada
Consciente dos riscos oferecidos pela Internet, a agente cultural Neli Maria Fonseca Viotto, 37 anos, marca presença ao lado da filha Paloma Viotto Galvão, 9 anos, quando a pequena utiliza a rede.
Neli monitora os sites visitados por Paloma e impõe limites de tempo de acesso. Em média, a filha está autorizada a navegar pela Internet duas vezes por semana. A exceção só é aberta quando a estudante tem que realizar alguma pesquisa escolar.
“Ela entra em bate-papo, mas na sala até 10 anos, e eu estou sempre junto”, garante. “A Internet tem coisa boa e ruim, então a gente tem que educar”, conclui a agente cultural.
Neli já ensinou Paloma a só utilizar apelidos nas salas de bate-papo e nunca fornecer os dados pessoais a estranhos. Em contrapartida, ela afirma que também tem aprendido com a filha nessa experiência compartilhada diante do computador. “Tem coisa em que eu não consigo entrar e eu chamo minha filha para me ajudar”, confessa Neli.
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Site
Preocupados com a crescente onda de assédio de crianças e divulgação de pornografia infantil pela Internet, o técnico em informática Anderson Miranda e a advogada Roseane Miranda criaram um site (www.censura.com.br) e iniciaram uma campanha pelo fim da exploração sexual infanto-juvenil e da pedofilia na rede mundial.
A idéia de criar o site surgiu em 1998, quando a advogada deparou-se, numa sala de bate-papo, com a imagem de uma criança de aparentemente 6 anos sendo vítima de abuso sexual. “Nós ficamos revoltados na época. Porque nós queríamos formalizar uma denúncia sobre aquilo e não conseguíamos localizar na própria rede um órgão para fazer isso”, conta Anderson. “A partir daquela data, nós resolvemos criar um protesto na Internet”, completa.
Anderson afirma que o site já recebeu milhares de denúncias e que todas são encaminhadas para órgãos competentes. Entretanto, ele ressalta que atualmente a punição para esse tipo de crime ainda é tímida. “É preciso centralizar essas denúncias através da Polícia Federal e capacitar o órgão para criar um centro de combate à prostituição infantil, que hoje em dia não existe”, diz.
A pedofilia na Internet, segundo o técnico em informática, movimenta milhões de dólares por ano. “Existe toda uma máfia por trás disso”, conclui. O casal já listou mais de 6,8 mil sites de pedofilia. Cerca de 6% são de origem nacional.
Além da página na Internet contra a pedofilia e exploração sexual de crianças e adolescentes, o casal Miranda também é autor de dois livros sobre o assunto: “Compreendendo a violência sexual numa perspectiva multidisciplinar” e “A exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil”, lançado recentemente.