Cultura

Sobre mundos: Viver o Natal

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Quatro sábios de diferentes regiões do Oriente previram o nascimento de Jesus e combinaram se encontrar em Jerusalém para então procurarem o local exato onde estaria o menino Deus. Um dos quatro sábios, porém, chegou em Jerusalém com muito atraso. Como os outros três já haviam se dirigido à Belém, o quarto sábio, que trazia como presente a Jesus três pedras preciosas, pôs-se, mesmo sozinho, a caminho da pequena cidade da Judéia.

Ao chegar em Belém, encontrou o vilarejo em luto. Uma pobre mãe lhe contou sobre o assassinato das crianças ordenado por Herodes, e também sobre como foi terrível ver seu próprio filho ser morto. Com muita compaixão, o sábio entregou à pobre mãe uma das pedras preciosas reservadas ao menino Deus e dirigiu-se para o Egito. Ao chegar neste país, foi informado de que a criança que procurava havia sido levada de volta para sua terra natal. Sem saber exatamente onde José e Maria se encontravam, o sábio passou vários anos perguntando e procurando por diversas cidades do Oriente Próximo.

Em uma de suas viagens, o sábio encontrou um leproso que lhe contou sobre um certo Jesus e como havia perdido a chance de se encontrar com ele e, provavelmente, ser curado da lepra. O sábio, para amenizar a dor do leproso, entregou-lhe outra pedra que possuía. Trinta anos se passaram e o velho não perdia a esperança de encontrar Jesus e lhe entregar seu presente. Ao entrar em Jerusalém, o sábio conheceu um garoto que lhe contou sobre a crucificação de um mestre chamado Jesus. Como o garoto vivia na miséria, o velho acabou entregando ao menino a última pedra preciosa que possuía. Ao sair da cidade, o sábio encontrou pelo caminho um estranho. Caminhando com este, contou toda sua história lastimando por não ter alcançado o objetivo de sua vida, ou seja, entregar ao menino Deus as pedras preciosas. O desconhecido sorriu, o abraçou e desapareceu.

Em todas as grandes religiões o sentimento de amor é o caminho para a salvação. Para os hindus, a palavra “bhakti” expressa este sentimento que salva o homem de fé. No livro Bhagavad Gitã ao lado do caminho do conhecimento está o caminho do amor a Deus. No capítulo 11, Krishna diz a Arjuna: “Quem tudo faz em Meu nome; quem Me reconhece como alvo de todos os seus mais nobres esforços; quem Me adora, livre de apegos e sem odiar a ninguém, esse chegará a Mim”.

Através do amor a Deus, as ações humanas deixam de ser destrutivas e passam a ser uma expressão de respeito, de carinho aos semelhantes e ao universo. Para os budistas, a palavra “Metã” significa a virtude de todo o bem. Metã está intimamente associada às expressões compaixão (karuna) e amor ao próximo (dana). O seguidor de Buda se identifica com o sofredor e o mais pobre. Quando o amor ao próximo e a ação concreta tornam-se uma unidade, encontramos o caminho para dissolver o sofrimento e completar nosso ser com a alegria.

Em outras palavras, o amor ao próximo no budismo não é imaginável sem uma ação concreta de solidariedade. No cristianismo, toda a lei de Deus é resumida por Jesus em dois mandamentos: amar a Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento e amar o próximo como a ti mesmo (Mt 22, 34-40). Cumprir um dos mandamentos compreende a realização automática do outro, afinal Mateus deixa claro o critério de salvação: tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era forasteiro e me recolhestes... (Mt. 25, 31-46).

Aproximar-se de Deus, ou seja, viver no Reino dos Céus expressa-se em uma vida de fraternidade. Esta, porém, não significa a simples prática de uma caridade forçada ou esporádica. Um ato de caridade motivado por sentimentalismo, medo de Deus ou satisfação pessoal não é expressão de amor, cria dependência e acaba caindo no vazio. Na verdade a realização dos dois mandamentos cristãos depende do surgimento de uma nova consciência. A consciência de que todos os seres humanos são filhos de Deus, todos são amados por Deus, todos possuem o direito à felicidade e à realização pessoal.

A partir desta consciência de que somos todos irmãos é possível surgir uma ação de verdadeira solidariedade, uma sólida fraternidade. A partir desta consciência, a ajuda ao outro é autêntica, espontânea e não artificial, forçada. A solidariedade surge não somente em ocasiões como Natal ou Páscoa, mas a qualquer momento e em qualquer lugar.

A caridade não é mais um ato de mero assistencialismo, mas expressa a vontade sincera de que o outro resgate sua dignidade e possa lutar pela vida com suas próprias forças. O surgimento desta nova consciência significa viver o Natal, ou seja, o nascimento do menino Deus é verdadeiramente celebrado quando sentimos o prazer e a necessidade de construirmos uma concreta vida de fraternidade. “A coisa mais importante da vida não é a situação em que estamos, mas a direção na qual nos movemos” (Oliver Wendell Holmes).

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