As pesquisas e a opinião generalizada mostram uma atitude exterior crítica em relação ao máximo mandatário norte-americano. Ao mesmo tempo, o cidadão médio do mundo resiste a retirar suas inclinações básicas de boa disposição para com o povo e a cultura dos EUA. Detecta-se George W. Bush como a principal causa das tensões mundiais, do aumento da insegurança internacional, dos enfrentamentos entre continentes e regiões e, sobretudo, da divisão de um necessário consenso dos dois lados do Atlântico.
Lamenta-se o desperdício do impressionante capital político de apoio aos EUA colhido depois do infame 11 de setembro. Ninguém mais recorda do agora inaplicável “todos somos americanos”, histórico editorial do Lê Monde do dia 12 de setembro. Hoje, nesses mesmos meios seria: “todos somos majoritariamente anti-Bush”.
Com uma mínima perspectiva histórica, não se detecta em nenhuma época anterior um caso semelhante de fobia majoritária contra um presidente dos EUA.
Na América Latina, a imagem e a percepção dos Estados Unidos sempre foram ingredientes consubstanciais na busca da identidade, tomando o gigante do norte como modelo ou ameaça. Na Europa, o sentimento geral oscila entre a atração por certos aspectos da cultura norte-americana (que se percebe com um halo universal) e a admiração por sua técnica, sua eficiência empresarial e, de certo modo, como uma distante utopia européia onde se poderia sublimar os desejos de uma vida melhor,deixando para trás um continente afundado em guerras religiosas, fome e intolerância. Essa sutil atração deixou de ter base com o final da Guerra Fria e o esgotamento do agradecimento europeu pelo apoio norte-americano à libertação da Europa das garras do nazismo e à proteção fornecida diante da ameaça marxista.
Nesse momento crucial de transição chegou o 11 de setembro, e o que se percebe como caminho errôneo do governo norte-americano. Nada a estranhar, portanto, que os sentimentos antinorte-americanos tenham alimentado inexoravelmente setores da extrema direita (especialmente francesa), emparelhada com o tradicional antagonismo da esquerda radical. Em todo caso, a decisão será tomada pelos eleitores norte-americanos, profundamente divididos, alarmados e, sobretudo, influenciados pela campanha na mídia e pelos debates neste final do processo. Em conclusão, a imagem exterior poderá ser vista como uma nota de rodapé, ainda que importante como documento, do que é um processo íntimo e interno.
O autor, Joaquín Roy, é catedrático de Relações Internacionais na Universidade de Miami