Tribuna do Leitor

Saudades de um passado


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Outro dia passei por um telefone público, na Av. Getúlio Vargas, cujo “cone” ou “orelhão” havia sido, literalmente, enfiado no postinho que o sustenta. Pela resistência do material, presumo que tenha sido necessário uns 4 ou 5 vândalos puxando-o violentamente para baixo até conseguirem estourar a grossa camada de fibra. Mas, que tipo de instinto bestial move um ser humano a fazer isso? Bestial sim, e incompreensível, pois no reino animal nem o mais vil dos parasitas é tão inclemente com o ambiente em que vive ou com o hospedeiro que o sustenta.

Nesse diapasão, são centenas de orelhões destruídos por mês, placas de sinalização de trânsito entortadas e pichadas, muros e fachadas impiedosamente pichados, lixeiras destruídas, rachas no trânsito... Pergunto-me: qual momento, da história da humanidade, viu-se uma juventude tão transviada, tão deturpada, tão destrutiva e odiosa? Nem se fale que é a violência do mundo atual que os desvia, pois guerras e violência sempre existiram, desde que o homem aprendeu a forjar o metal, mas sempre se viu respeito dos jovens pelos mais velhos e pela sociedade.

Creio que a resposta não seja complicada. Sob a égide de um pacifismo estrábico e uma irresponsabilidade complacente, Poder Público, profissionais da educação, antropólogos e pais adotaram uma postura convenientemente omissa para tratar os jovens, notadamente após a edição do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, em 1990. Depois dele, não se pode reprimir, senão se traumatiza a criança; não se pode punir, senão não se educa; não se pode, nem mesmo, reprovar na escola, senão o pobre jovem não descobre o seu potencial interior e estará fadado a uma vida de insucesso e lamúrias. Hoje, o estrabismo educacional tenta nos fazer acreditar que o jovem violento está tão somente “manifestando seus conflitos interiores”, permitindo que assim se abra espaço para a libertinagem desenfreada e inconseqüente. A falta de punição exemplar, em seu sentido verdadeiro, tirou a noção de limites racionais e dá, aos jovens, o que eles precisam para alimentar seu ego: a satisfação e o prazer incomensurável ao cometer um “pequeno crime” (pichar, destruir, invadir...).

Noutros tempos – e nem tão distantes – a juventude manifestava igualmente seus conflitos, mas sem causar danos a outrem. Os punks, os hippies, os roqueiros e outras diversidades de “tribos” que marcaram época demonstravam sua “insatisfação com o sistema” na forma de escovar e pintar os cabelos, na roupa que usavam, nas drogas que consumiam, nas tatuagens e nos piercings que colocavam ou na forma de fazer sexo sem compromisso. Mas faziam isso apenas na esfera particular, para satisfação do seu ego. E eram felizes.

Hoje, estamos sendo obrigados a aprender a aceitar que a violência e a destruição, a agressão e o dano, a inapetência escolar e a inépcia em se viver em sociedade faz parte do “dia a dia” dos jovens. Eles não querem se furar com piercings; não querem se drogar. Não precisam se tatuar. Querem vestir roupas normais, pentear-se como pessoas normais, mas agir como débeis animais. E ai de quem os reprimir: ECA neles!

Sinto saudades do tempo que éramos primitivos e involuídos, de quando o não era não, de quanto os pais realmente mandavam nos filhos, de quando a ordem do professor era lei, de quando a violência juvenil era considerada crime e, paradoxalmente, de quando o crime era tratado como crime. Sinto saudades de minha cidade limpa, dos muros coloridos, dos bancos de praça e lixeiras no lugar onde foram colocados e dos orelhões funcionando quando se precisasse deles (às vezes, até para se salvar uma vida). Talvez eu não seja um saudosista. Provavelmente, eu seja apenas um ser involuído e primitivo, incapaz de perceber que tudo isso que os educadores chamam de “manifestação interior” ou “forma de expressão” seja o fiel retrato da evolução e do progresso. Preciso me adaptar aos novos tempos.

Ivan Garcia Goffi

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