Cultura

Artigo: Pretinho Básico: um mito


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Fui encontrar amigos outro dia no Café 21. Para minha imensa surpresa, alguém abordou o assunto moda e toda aquela gente bonita e inteligente deu palpites. Descobri coisas maravilhosas depois desse bate-papo. O giro da moda, como funciona, como corre de mulher para mulher... O que pensam e falam sobre a moda e a forte ligação que as mulheres têm com tudo que é clássico e ao mesmo tempo com tudo que é novo. Uma delas disse: você lembra da Jackie, toda de preto, impassível no enterro do Kennedy? Um luxo...

Para o físico Newton o preto não é cor, indica ausência de luz, enquanto para Goethe o preto é uma síntese produzida pela soma de todas as cores. Aparentemente, as definições são opostas, mas ambos estão certos: o primeiro refere-se a cor/luz, o segundo a cor/pigmento.

Caravaggio pintou seu atelier de preto para valorizar a luminosidade das cores das roupas de seus modelos; conhecendo ou não esse exemplo, os artistas gráficos empregam o preto para realçar as cores de seus trabalhos.

No Egito antigo, uma pomba preta era o hieróglifo da mulher sofrendo a viuvez até o fim dos seus dias. Na Grécia essa cor simbolizava fatalidade. Diz a Bíblia que Adão e Eva se cobriram de preto ao serem expulsos do paraíso terrestre, numa representação do mal sem remédio.

Em psicologia, preto corresponde a uma grande angústia, onde o luto aparece como símbolo de perda irreparável. Em várias partes do mundo, as mulheres vestiam preto por algum tempo, quando viúvas. As outras foram percebendo o fascínio dos homens por essas mulheres de preto, consideradas como frutos proibidos. A cor fica, então, associada a sensualidade, tornando aquele simples vestidinho em um charme. Dizem que ele valoriza qualquer estilo. É contemporâneo, atemporal, atrevido, sedutor, impactante. Seu impacto é vertical e não horizontal, sem ironia...

Entretanto, a responsável pela popularidade do pretinho básico não é a Thaís Araújo que recentemente declarou: “calma gente, sou só uma pretinha básica”, brincando com o famoso vestido que toda mulher tem em seu guarda-roupa.

Quem converteu-o no sucesso atual foi Audrey Hepburn, no filme Bonequinha de Luxo. Ela usou o tal pretinho como roupa simples, dessas que a gente veste para ir de manhã à padaria. Ao mudar complementos sofisticou-o para grandes eventos noturnos.

Nesse momento a cor preta perde a conotação anterior e juntos vestido e cor começam a tornar-se um mito. No cristianismo o preto simboliza renúncia às vaidades deste mundo. Nenhuma mulher veste um pretinho com essa intenção, mas seja qual for o objetivo oculto em seu uso, viva o meu, o seu, o nosso pretinho básico.

A autora, colaboradora de Ju Machado escritório de arte, assina-se com o pseudônimo de Rosa Bertoldi.

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