Rural

Produtor troca café por outras culturas

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

A lavoura de café na região de Bauru passa por um momento de redução da área plantada, postura econômica que se mostra irreversível. A substituição é lenta porém contínua, com perda de espaço para as lavouras de milho, soja, mandioca e amendoim. Os produtores atribuem aos preços baixos e fatores climáticos o desinteresse pelo café.

O cafeicultor José Renato Miranda Serra é um dos que aderiram às culturas alternativas para compensar a baixa dos preços com a produção de café. Em uma de suas três propriedades, mantém 500 mil pés de café, mas já eliminou 30 hectares para o plantio da soja, que já ocupa uma área de 150 hectares. A troca de cultura sinaliza que Serra pode deixar de ser um cafeicultor para se tornar um sojicultor. “É um ciclo que não tem volta e a região vai diminuir a produção”, sentencia o produtor de Garça.

Ele atribui a diminuição da lavoura de café à descapitalização dos produtores, a várias quebras de safra nos últimos três anos e a secas e veranicos. Serra comenta que só o clima contribuiu para uma queda na produção de 20% a 30%. Outro fator preponderante para a diminuição das lavouras são os altos custos dos insumos (fertilizantes), que têm preços dolarizados.

O presidente da Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Garça e diretor-superintendente do Conselho Nacional do Café, Manoel Vicente Bertone, não acredita que, no médio e longo prazo ocorra uma reversão da erradicação da lavoura de café na região. “Embora os preços tenham se recuperado nos últimos 40 dias, não dá para recuperar porque o cara não tem o café e não tem renda. Não vai reverter”, sentencia.

Na avaliação do Instituto de Economia Agrícola (IEA), a alta nas cotações, em novembro, em todos os mercados, decorreu do esperado aumento da demanda no hemisfério norte, quando se inicia o inverno, a menor oferta da América Central, o atraso da colheita colombiana e a menor disponibilidade de café arábica de qualidade da última safra brasileira.

Ele explica que, nos últimos cinco anos, o preço da saca de café vem caindo, o que provocou uma crise no setor. “Há claramente uma redução de área na nossa região. Por erradicação e por abandono. O café é uma cultura de longo prazo e o sujeito não vem tratando da lavoura e está tomando prejuízo”, ressalta Bertone.

“Desaparecer”

O presidente do Sindicato Rural de Bauru e Região e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde, revela que a tendência da cultura do café no Estado de São Paulo é desaparecer. Ele justifica que nos últimos três anos o café se tornou um péssimo negócio. “O café tem que ser vendido, pelo menos a US$ 100 a saca, para você empatar.” Diferente do relevo montanhoso de Minas Gerais, as regiões produtoras de São Paulo podem receber outras culturas. Lima Verde comenta que o cultivo da mandioca, lavoura alternativa, propiciou ótima rentabilidade na última safra. “Há a transferência e é lenta. Em Garça está se plantando soja, e a cidade é um dos maiores produtores de café. Mas hoje só louco (produz café), que ele gastou o que precisava, porque ele quebra”, explica.

Serra revela que há cinco anos não existe movimento de renovação das plantações da região, outro grave problema que irá refletir nas próximas safras. “Deixamos de plantar e houve muita poda. O parque cafeeiro está senil. A safra é de ciclo baixo e, com a diminuição do trato, as lavouras vão diminuir”, revela. Apesar da melhora de preço do café, ele entende que poucos produtores terão como aproveitá-la.

Em decorrência deste quadro, ele projeta quebra na safra de 2005-2006. “Acho que será uma das menores safras que nós vamos colher.” Ele aposta numa melhora apenas para a safra de 2006 e se houver custeio.

A Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Garça abrange mais de 100 municípios entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Na região de Bauru representa produtores de Piratininga, Duartina, Garça, Álvaro de Carvalho, Vera Cruz, Ocauçu, Lupércio, Alvinlândia, Ubirajara, Lucianópolis, Presidente Alves, Gália e Mesquita.

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