Mesmo com pouco dinheiro e poucos recursos, alguns moradores de periferia fazem questão de comemorar a passagem de ano. Moradora da favela do Parque Jaraguá, a catadora de papel Jucélia Menezes Adorno, 42 anos, fez uma macarronada para a família reservou o dinheiro da venda de recicláveis da semana para comprar um frango e comemorar o Ano Novo com seus filhos, marido sogra.
“Deus sempre traz um franguinho. Quando não tem carne, a gente faz arroz, feijão e salada. Eu faço questão de comemorar. É uma felicidade para as crianças, que não ganham brinquedo no final de ano”, justifica.
Uma semana antes da passagem de ano, parte do barraco em que Jucélia vive com a família desabou devido às fortes chuvas. Mesmo passando dificuldades, ela afirma que o final de ano é uma época alegre para ela.
“Dia de Ano Novo é um dia alegre. Eu gosto mais do Ano Novo do que do Natal porque é uma data de esperança para que as coisas melhorem para a gente. Eu nunca gostei do Natal porque eu fui criada sem mãe e sem pai”, explica a moradora.
Já o marido de Jucélia, Moacir Aparecido Adorno, 40 anos, desempregado, não vê motivos para lembrar a data. “O Ano Novo é um dia como outro qualquer. Para mim, não faz diferença. Eu não faço questão de comemorar. Não tenho esperança de que as coisas mudem”, diz.
O filho, Jeferson Menezes Adorno, 14 anos, acredita que a virada do ano traz boas esperanças. “Eu gosto do Ano Novo. Em 2004, eu sei que não deu para meu pai entrar num emprego. Mas, no Ano Novo, que ele esteja bem empregado e que dê para a gente passar o ano melhor, muito felizes. Eu tenho esperança”, reforça.
A sogra de Jucélia, a aposentada Sebastiana Alarcon Sanches, 79 anos, não estava animada para comemorar o Ano Novo. “Desta vez, eu não fiz nada para comemorar porque eu não tenho. O meu pagamento mal dá para pagar luz e água e fazer as compras. Acaba o dinheiro, acaba tudo. Não tem condições”, enfatiza. Sebastiana conta que no final de 2003 ela ganhou uma cesta básica e pôde fazer uma ceia de réveillon. “Neste ano, nem uma cesta básica eu ganhei”, reclama.
Vera Lúcia Tomáz, 41 anos, moradora da favela do Parque Jaraguá, também não deixa a data passar em branco. Na véspera, ela faz um churrasco. No dia 1.º de janeiro, faz uma macarronada para o almoço. “Só isso. Todo ano é assim”, diz.
Apesar da comemoração com os filhos e o marido, Vera não esconde a tristeza que a data traz a ela. “Para mim, é um dia triste. Eu não gosto de Ano Novo. As crianças pedem as coisas e a gente não tem condições de comprar. Então eu acho triste. Para mim, não tem graça. Eu faço essa macarronada só para não passar em branco porque, na verdade, eu não gosto de final de ano. Não tenho motivo para comemorar. De jeito nenhum”, frisa.
Entre a vizinhança, Vera conta que o dia de réveillon
é um dia comum, igual aos demais, em que não muda nada no cotidiano dos moradores. “Cada um fica na sua casa.
É tudo simples. É um dia normal, não tem nada de diferente, não muda nada. Eu só vejo que as pessoas bebem bastante”, observa.
Vera tem dois irmãos que moram em Bauru, além da mãe. Entretanto, não passa as festas de fim de ano com eles. “ Como a gente mora na favela, eles desfazem da gente. Então, cada um fica na sua casa. Mas eu nem ligo. Já me acostumei”, diz.
“Eu preferiria que nem tivesse data para comemorar. Desde criança, nunca teve nada e continua não tendo. Eu acho que eu nunca tive motivo para comemorar”, destaca.
Moradora da favela do Ferradura Mirim, Flávia Cristina Vieira da Silva, 24 anos, passa as festas de fim de ano com a família, que mora no Parque Jaraguá. Ela leva seus cinco filhos e o marido.
“Comemoro com minha família, minha avó, minha mãe e meus tios. Passamos todos juntos. Eles moram no Jaraguá e nós vamos para lá. Nós nos reunimos como todo mundo, como toda família tradicional, em volta da mesa, com bastante alimento e bebendo”, conta.
Para Flávia, as festas são uma oportunidade de reunir a família. “É uma data boa. Todo mundo comemora. Para mim, é boa porque é festiva, porque a família se reúne. A gente já passa o ano cada um por si e o Ano Novo nós passamos reunidos. Eu gosto muito”, salienta.
Já a dona de casa Benedita da Fonseca, 52, moradora do Ferradura Mirim, afirma que comemora “mais ou menos”.
“Quando dá para ter um guaranazinho para tomar e uma macarronada, a gente comemora. Não é grande coisa, mas a gente consegue passar o dia com os filhos que chegam. A gente faz um almoço em família. Quem toma cervejinha, toma; quem não pode, toma guaraná”, conta.
O genro, Cristiano Aparecido Arcanjo, completa.
“Ano Novo é para a gente deixar as coisas velhas para trás e procurar coisas novas”, expõe.