A realidade de quem vive em entidades assistenciais
é diferente da de quem mora na favela, mas nem por isso é menos triste. São pessoas que recebem atenção e cuidados, mas passam o final de ano longe de suas famílias.
Flávio José Tavares, 45 anos, mora há pouco mais de um ano no Albergue Noturno do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac). Esta, portanto, foi a segunda passagem de ano dele na entidade.
“Nessa época, eu sinto falta da convivência com a família, do relacionamento, de estar conversando e trocando muitas idéias no dia-a-dia”, enfatiza.
A convivência com as pessoas atendidas pelo albergue, embora saudável, não supre a necessidade e a saudade de seus parentes.
“O Ano Novo é comemorado aqui com bastante alegria. Temos alimentação completa e dormimos antes da meia-noite. É um dia feliz. A gente passa a conviver mais com as pessoas, que sempre têm uma mensagem positiva para a gente. Também é motivo de esperança para o dia de amanhã”, revela Flávio, que destaca que sente falta da família.
“Não é a mesma coisa do que estar com a família”, acrescenta. Ele tem dois irmãos em São Paulo, com os quais não mantém contato.
“O falecimento da minha esposa desestruturou toda a minha vida. Hoje, eu estou em busca da recuperação material e espiritual”, explica Flávio.
José Eronildes da Silva, 23 anos, está morando no Albergue Noturno há cerca de dois meses. Ele é natural do Estado de Alagoas (AL) e veio a Bauru em busca de emprego. José passou os primeiros meses na casa de um tio que mora na cidade. Entretanto, após um desentendimento entre os dois, o rapaz teve de procurar outro local para viver. “Não quis voltar para Alagoas. Se eu vim para cá para vencer, eu vou vencer”, acredita.
A decisão, entretanto, é um desafio já que ele agora vive sozinho e passou a virada de ano afastado de todos os seus parentes. “Sinto bastante saudade da família. A gente foi criado junto e por isso eu sinto tanta saudade. Só que eu tenho que achar meu caminho”, frisa.
A diretora administrativa do Albergue Noturno, Anunciata dos Santos Crepaldi, afirma que o Natal é mais comemorado do que o Ano Novo na entidade. Mas a data não passa em branco.
“No dia de Ano Novo, a gente procura caprichar mais no cardápio e ter refrigerante. Os plantonistas (voluntários) se reúnem após o almoço e fazem um jantar melhor para eles”, explica.
A diretora conta que muitos albergados lembram-se da família na data. “É uma época de saudade. Para aqueles que não têm família, que não vêem os parentes há muitos anos, é uma época de lembrança. Mas não tem reclamação. Geralmente, eles são acostumados a essa vida”, salienta Anunciata.