Cultura

Os desafios da Cultura para 2005

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Bauru não é uma cidade que tenha uma vida cultural tão variada quanto merecia. Com uma população estimada que passa dos 340 mil habitantes, a cidade também não dispõe de espaços suficientes para que as pessoas que moram nos bairros mais distantes do centro da cidade, onde atualmente se concentram quase todas as atividades culturais realizadas, possam usufruir de eventos simples como uma peça de teatro, um show musical ou um curso.

Há também a questão dos universitários. A cidade possui oito instituições de ensino superior e milhares com seus milhares de estudantes. No entanto, ao contrário do que acontece em cidades como São José do Rio Preto ou São Carlos, não há uma efetiva participação destes universitários na vida cultural do município por falta da criação de projetos que unam os interesses de ambas as partes. Um desperdício de talento.

Apesar destas questões, os principais desafios da nova administração para a área cultural da cidade devem ser a afetivação do Conselho Municipal de Cultura e a volta do Carnaval para o sambódromo. O primeiro, por uma questão de organização. Com o Conselho em funcionamento a cidade poderá planejar uma política cultural a médio e longo prazo, preservar espaços estimular manifestações artísticas, etc., tudo com a aprovação da comunidade representada pelos membros do grupo.

Já a volta do Carnaval é uma questão de honra. A cidade que tem o segundo sambódromo mais antigo do País em 2004 ficou pelo terceiro ano consecutivo sem desfiles. Depois de tantos anos, a questão parece quase ter sido assimilada pela população e pelos sambistas, que realizam desfiles nos bairros como forma de não deixar a data passar em branco.

A realização de um desfile em 2005 é praticamente impossível por uma questão de tempo e a festa só deve voltar à cidade em 2006, mas se o planejamento começar agora.

Conselho

O projeto que cria Conselho Municipal de Cultura, de autoria do prefeito Nilson Costa, foi publicado no dia 21 de setembro no Diário Oficial de Bauru. O artigo prevê diversas ações de incentivo cultural, como a promoção e estímulo de manifestações culturais, preservação de espaços para estas manifestações e continuidade de projetos culturais já consolidados e com reconhecimento da sociedade. Além de fomentar atividades artísticas, essas diretrizes representam uma forma de organização da cultura no município e garantir que, caso o projeto seja aprovado, essas ações ficarão protegidas das mudanças de governo e políticas.

Depois de várias sessões e discussões, a Câmara Municipal aprovou o projeto no início de dezembro com três emendas.

O conselho deverá ter 28 membros. De acordo com a proposta, ele será presidido pelo secretário de Cultura, sendo formado por representantes não-remunerados de diversas categorias, do Executivo Municipal e da Câmara, além de membros de áreas específicas - artes cênicas (teatro e circo), linguagens plásticas (pintura, escultura e fotografia), cinema e vídeo, artes gráficas (poesia visual, revistas e criação de web sites), arte de rua, artesanato, literatura, música, histórico cultural (órgãos ligada a história da cidade), produção e divulgação de conhecimento científico (universidades), comunicação e mídia e cultura popular (catira e Folia de Reis) - passando por membros de associações de moradores e nomes indicados pelas entidades da indústria e do comércio.

O grupo deverá acompanhar a proposta de orçamento do município para a cultura e participar de todos os assuntos que estejam relacionados à área cultural da cidade.

A criação do conselho era uma antiga reivindicação da classe artística bauruense, que finalmente vai ter sua representatividade nos momentos de decisão da área cultural, que em 2004 ganhou o reforço da Lei de Estímulo, já em vigor (leia matéria na página XX).

A partir deste ano, quando entrar em vigor, o Conselho deve se tornar uma ferramenta importante também para que a cidade possa buscar junto aos governos Estadual e Federal, verbas destinadas a projetos culturais.

Carnaval

Em entrevista realizada pela Rádio 96 FM antes das eleições, que gerou uma matéria já publicada no Jornal da Cidade, o prefeito Tuga Angerami afirmou ser preciso “abrir uma grande discussão sobre o Carnaval”, já que considera um erro destinar verba para a festa quando algumas escolas “inexistem” durante o ano todo e, na época do desfile, “pegam a laço seus participantes, colocam fantasia e põem na avenida”.

“Para mim, Carnaval pressupõe não um evento festivo de três dias, mas um processo como o que a Mangueira faz: articulado o ano todo, com uma função social de qualificação e preparação de mão de obra na produção”, declarou Tuga na ocasião.

É difícil buscar argumentos para rebater as afirmações do prefeito baseando-se na história recente do desfile na cidade. Quando a prefeitura decidiu não mais destinar verbas para as escolas, a grande maioria das agremiações simplesmente parou. A Liga das Escolas de Samba (Lesec), órgão responsável pela realização dos desfiles e que gerencia o sambódromo se mostrou pouco eficiente para buscar soluções nestes três anos e preferiu manter o discurso contra a prefeitura. “A Lesec é a coordenadora das escolas, mas não tem obrigação de colocar dinheiro”, disse o presidente da entidade, Avelino de Souza ao JC em matéria publicada em 19 de janeiro de 2004.

A realização do Carnaval só deve ser resolvida quando o impasse entre a administração municipal e as escolas (representadas pela Lesec) terminar. Para isso a participação da iniciativa privada parece fundamental. Após três anos (que devem se tornar quatro em pouco tempo) sem desfile é pouco provável que a prefeitura (não apenas na gestão Tuga, mas de agora em diante) volte a bancar a festa como já fez em anos anteriores e como a Lesec não gera recursos, só o empresariado pode investir se houver um projeto que, obviamente, anteveja um retorno financeiro para todas as partes. O potencial existe, mas é preciso assumir antes de tudo que o Carvanal como simples festa pela festa, acabou.

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