Economia & Negócios

Economia é motivo de otimismo em 2005

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 6 min

Ninguém discute que a economia brasileira demonstrou ao longo do ano passado uma sensível recuperação. Fato indiscutível também foi a diferença do “astral” nada otimista na virada de 2003 para 2004 e bastante otimista na passagem de 2004 para este ano. Se em janeiro do ano passado o clima de incertezas não propiciava razões para comemorar, hoje a atmosfera revela que o País tem boas chances de crescimento em 2005.

O economista Carlos Roberto Sette traça para o Brasil um panorama de excepcionais oportunidades de desenvolvimento, graças a ações no campo macroeconômico e a aprovação das Parcerias Público-Privadas (PPPs). Sette ressalta que as dificuldades na área de escoamento da produção, como os problemas vividos nos portos em 2004, podem ser solucionadas.

“Uma grande possibilidade de fazer mais rápido aquilo que o governo sozinho não conseguiria. Vejo um convite do governo ao setor privado, que vai dar empregos para pessoas de nível educacional menor. Exatamente a maior massa que se encontra desempregada no País. Se não se criar essa infra-estrutura, algum fator vai limitar o desenvolvimento”, salienta.

O economista faz suas projeções com base na performance econômica dos últimos anos. Ele relembra momentos ruins na economia brasileira de 2002 para 2003, momento em que o novo governo assumiu. Quanto à estratégia de frear a demanda mantendo os juros altos, Sette avalia que não será suficiente porque o mercado tem crédito abundante para empresários e também está acessível para o consumidor comum.

A combinação da aprovação das PPPs com a possibilidade de um acordo mais flexível com o Fundo Monetário Internacional (FMI) dá a certeza de que o Brasil terá os instrumentos adequados para promover o desenvolvimento sustentável. Ele explica que o governo negocia com os técnicos do Fundo a retirada do percentual de superávit primário de um novo acordo, valor que reverteria para investimentos.

O nó no acordo em vigência com o FMI é a obrigatoriedade de o governo brasileiro economizar hoje 5% do Produto Interno Bruto (PIB) apenas para pagar os juros da dívida pública. “Se o governo conseguir, nós vamos poder utilizar uma parte para investimentos. Isso vai ser muito bom. Se houver uma flexibilização desse percentual, teremos um incremento maior no País para obras de infra-estrutura”, vislumbra.

Intervenção

Sette diz que o Fundo já percebeu que sua política sufocou países emergentes, entre os quais Brasil e Argentina, obrigados a trabalhar com um superávit primário muito alto para garantir o cumprimento do acordo com a instituição.

Ele faz uma restrição à atual política intervencionista no câmbio adotada pelo Banco Central. “O real está apreciado em relação ao dólar. Cada vez que o BC intervém, ele queima reservas. Acho que se deve deixar o câmbio flutuar normalmente”, afirma.

Sette avalia que os investidores estrangeiros acompanham com interesse as sucessivas quedas do risco-país e percebem que o Brasil está viável para investimentos. O mercado brasileiro é bastante atraente para o dinheiro externo pelo fato dos investimentos serem remunerados por juros reais.

O economista considera que o Brasil deva crescer este ano 4%, um ponto percentual abaixo do crescimento registrado em 2004, mas ainda superior ao nível dos anos anteriores. Ele acrescenta que o País adotou a exportação como forte propulsor do crescimento. “Alguns segmentos crescem, geram postos de trabalho. Na medida em que vai gerando emprego, vai alimentando o mercado”, afirma.

Avanço

O economista Said Yussuf Abu Lawi também vê como avanço a aprovação das PPPs, num sinal de que o ano será favorável para o desenvolvimento econômico. “Aos poucos, voltamos àquela tese de que as obras de infra-estrutura movimentam nossa economia. Estamos retomando essa tese de que aquece demasiadamente a economia e gera empregos. As pessoas tendo salário vão ao comércio e o varejo amplia seus pedidos para as indústrias. A grande cartada, para 2005 vão ser as PPPs. Se surgirem as grandes obras nossa economia terá um aquecimento global. Porque afeta o setor primário, secundário e terciário”, avalia.

Lawi ressalta que só o incremento na economia é capaz de baixar os juros, uma das cobranças do setor produtivo. O economista lembra que juros altos visam o equilíbrio da dívida pública, ainda que o governo insista no discurso de que não há relação entre uma e outra. “Ele (governo) não pode baixar os juros senão ele não consegue captar recursos no mercado”, justifica.

O economista avalia que o Brasil deva recuperar uma fórmula que deu muito certo nos anos 70 quando as compras eram a prazo com juros baixos e a economia do País atingiu índices de crescimento de 7% ao ano.

Juros

O relatório de inflação divulgado na última terça-feira pelo Banco Central (BC) prevê um cenário para este ano com a taxa básica de juros em 17,75% ao ano e o câmbio fica em R$ 2,75. O documento trouxe uma elevação da estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 4,4% para 5%, em 2005. Este ano, a previsão de expansão do PIB, assinalada no mesmo documento, ficou em 4%, percentual que tem como base os mesmos números para câmbio e juros. A correção, nas últimas semanas de 2004, dos preços dos combustíveis, telefonia e energia elétrica puxaram a inflação para cima. A elevação de 9,53% para 9,76% gera expectativas de aumento da inflação no ano em relação às perspectivas da semana anterior. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve marcar 0,74% em dezembro, contra prognóstico anterior de 0,68%.

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Estabilidade

O consultor de empresas e economista Adriano Fabri, que atua principalmente junto a pequenas e médias empresas, observa que o bom momento econômico não reflete uma melhoria generalizada. “O crescimento do PIB reflete tudo o que a economia cresceu. Porém, tem muita gente que não cresceu”, explica.

Fabri entende que o novo ano exige cautela nas apostas de crescimento elevado. Ele baseia-se na tendência demonstrada pela equipe econômica do Planalto de não flexibilizar as taxas de juros, justamente para conter a inflação.

Na percepção do economista José Roberto Serra, as perspectivas são promissoras neste ano. Ele entende que o salário mínimo de R$ 300,00, a partir de maio, deve servir de estímulo para o consumo e ampliar a massa de consumidores que estavam impossibilitados de ir às compras. A demanda interna aumenta e os empresários devem investir, principalmente, no varejo. Serra entende que os juros elevados desestimulam os investimentos, porém, ajudam o controle da inflação. “O risco-país deve se manter no atual patamar e a possibilidade de queda atrai investimentos, que geram emprego. Você tem uma certa estabilidade de preços.”

O governo tem buscado manter o superávit comercial e aumentar a diferença do quanto o País exporta em relação às importações. As contas do Planalto definiram como meta para 2004 US$ 32 bilhões de superávit comercial e alcançaram US$ 33,081 bilhões. Serra avalia que a balança comercial é um problema apesar do superávit atual. “Acho que esse equilíbrio se manterá neste ano”, destaca.

Em torno do tema exportações/importações, há uma gama de interesses de setores que se contrapõem ao câmbio com dólar fraco, argumentando que o produto nacional perde competitividade interna - na briga pelo mercado com os importados - e externa, pois há uma valorização do produto brasileiro que deixa de ser atraente lá fora.

O economista lembra que as exportações colaboram para o aumento de empregos para atender a demanda. Ele acrescenta outra variante no caso das importações de máquinas e equipamentos, que sinalizam investimentos mas que podem retrair a indústria nacional, que passaria a não investir na pesquisa de novos produtos, pela concorrência externa.

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