O dia 4 de janeiro lembra a morte do Henfil em 1988 com seus poucos 44 anos, mas homenageia em síntese todas as causas que ele abraçou neste dia que também é o Dia do Hemofílico. Mas aqui não quero lembrar o que matou Henfil, mas o que ele nos levou a viver.
Henfil, pseudônimo de Henrique de Souza Filho, criou vários tipos com seu traço característico: Zeferino, Bode Orellana, os Fradins, Orelhão, Urubu, Pó de Arroz, Bacalhau, Ubaldo o Paranóico e a Graúna, que foi seu maior sucesso de público.
Henfil trabalhou com várias mídias, escreveu para o teatro, dirigiu um filme, produziu quadros na TV, escreveu livros. Hemofílico, foi vítima da incompetência dos governantes que levaram a saúde ao caos nesse País: numa transfusão de sangue, em um hospital público, contraiu o vírus da aids e faleceu em decorrência da doença que combateu intensa e duramente.
Seu livro mais famoso Diretas Já é bem mais que um livro, bem mais que uma coleção de textos escritos ou desenhados feitos num período peculiar da história do Brasil. É uma frente de combate de soldados de papel que venceu várias batalhas importantes pela implantação da democracia no Brasil.
Em vida, Henfil não conseguiu, entretanto, que houvesse a eleição direta no Brasil, mas fez com que ela se tornasse inevitável. Henfil vibrava pelos seus ideais nas suas formas peculiares de expressão, em todos os lugares que trabalhava, que não eram poucos, mas principalmente no Pasquim e na Isto é. As primeiras crônicas do livro datam do começo de 1980 e as últimas saíram pouco antes do colégio eleitoral eleger Tancredo presidente, por quem Henfil não tinha lá muito apreço, aliás nenhum.
Entretanto, a carta que escreveu à sua mãe, Dona Maria de Deus, em setembro de 1977, que transcrevemos a seguir, retrata sua preferência por um operário civil na presidência do Brasil:
Tô chegando agora em casa, depois de ter sido convocado, alta madrugada, para uma conversa de bastidores. O presidente Geisel me acordou para me fazer uma proposta. Pensei que, finalmente, meu irmão poderia voltar pro Brasil e em troca eu abdicaria da minha tara por pés de mulheres. (Não sei se o Betinho vale tanto sacrifício, mas depois eu peço habeas corpus.). Fui entrando e, como prova da minha honestidade de propósitos, já entregando minha coleção de 138 sandálias e tamancos. A senhora sabe muito bem o que estes troféus significam para mim. Sabe que cada um tem a história de um pé que namorei. Pois entreguei tudo. E o presidente nem olhou. Foi me abraçando e notei que enfiou alguma coisa no meu bolso. Eu falei: “O que é isso?” Ele: “Acabo de devolver o poder aos civis!”.
Fui enérgico, talvez até demais: “Eu recuso!”. Ele ficou tão desapontado. Tanto que ficou só repetindo: Por quê? Por quê? Por quê? Tive que dizer que eu não represento bem os brasileiros. Estou totalmente infiltrado de idéias exóticas e alienígenas.
Desde criança que escuto só rock, visto só jeans, bebo só Pepsi, fumo King-size, dirijo Volks, enxergo rayban, me lavo com xampu e (o que é pior) aprendi a ler com Walt Disney. O presidente ficou inconsolável:
- Mas isto torna inelegível toda a nossa intelectualidade! Então quem, qual o civil que você indicaria para o poder?
- Operário civil! Fiz bem, mãe?
A benção do seu filho Henfil.
João Bosco e Aldir Blanc talvez retratem melhor a lembrança do dia da morte de Henfil neste trecho de “O Bêbado e o Equilibrista”: “e nuvens, lá no mata-borrão do céu, chupavam manchas torturadas... que sufoco louco... O bêbado do chapéu côco fazia irreverências mil, pra noite do Brasil... meu Brasil... que sonha com a volta do irmão do Henfil com tanta gente que partiu, num rabo de foguete... chora... a nossa pátria mãe gentil... choram Marias e Clarisses, no solo do Brasil”.
O autor, Pedro Antonio Domingues, é professor dos cursos de administração, pedagogia, hotelaria e turismo da Universidade São Francisco- www.saofrancisco.edu.br