Regional

Em Itapuí, pescadores usam prédio público como acampamento

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Itapuí - Um antigo restaurante, às margens da prainha de Itapuí (44 quilômetros a leste de Bauru), foi transformado em acampamento por um grupo de 18 pescadores. As redes estão por toda a parte, sejam as de pescar ou de dormir. Como é costume entre os nordestinos, as redes de tecido substituem as camas na hora do descanso.

O imóvel está abandonado há muito tempo. Seu aspecto físico deixa isso bem claro para qualquer pessoa que passa pelo local, seja um visitante ou morador da cidade. Um incêndio, há alguns anos, destruiu boa parte do prédio, que fica a cerca de dez metros da praia.

O telhado praticamente não existe mais. O grupo escolheu a escadaria do velho restaurante para se abrigar do tempo, pois é o único lugar onde existe laje. Por outro lado, não há parede para protegê-los do vento que vem do rio e da curiosidade das pessoas que passam pelo local.

Mesmo com o prédio em uma situação precaríssima, a prefeitura da cidade quer que os pescadores desocupem a área. O prefeito recém-empossado, Gilberto Saggioro (PPS), alega tratar-se de um espaço público que precisa ser preservado. Além disso, ele não concorda com o “arrastão” que tem sido feito no rio Tietê.

Todos os dias, são retirados da água, somente por esse grupo que está acampado no restaurante, cerca de 150 quilos de peixes. Mesmo em Itapuí e em outras cidades da região, existem outros grupos de pescadores que retiram do rio toneladas de peixes diariamente. Na opinião do prefeito, trata-se de uma pesca predatória.

A afirmação é contestada pelo cearense Francisco da Silva, 31 anos, um dos pescadores que estão acampados em Itapuí. Segundo ele, mesmo com a grande intensidade da pesca, a quantidade de peixe nesse trecho do rio Tietê é enorme.

Eles armam as redes no fim da tarde e só as recolhem no dia seguinte, por volta das 6h. E não é todo e qualquer peixe que interessa a eles. O objetivo é um só: a tilápia. Tudo o que é pescado tem venda garantida. As outras espécies de peixes, segundo eles, quando pescadas, são devolvidas ao rio.

De acordo com os pescadores que estão em Itapuí, toda a “produção” de tilápia é vendida para a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), na Capital paulista. Há quem diga que parte dos peixes é utilizada na fabricação de ração animal. No entanto, os pescadores negam essa informação.

Quase todos os dias, um caminhão equipado com câmara frigorífica deixa a cidade carregado de peixe, com destino a São Paulo. A venda dos peixes rende a cada pescador cerca de R$ 800,00 por mês.

Quando a pesca começa a ficar fraca, geralmente nos meses mais frios, o grupo vai para regiões mais quentes, onde a tilápia ainda pode ser pescada em grande quantidade. Ao contrário do que pensa o prefeito Saggioro, o pescador cearense Pedro de Souza, 31 anos, acredita que a pesca em grande escala da tilápia serve como uma espécie de controle da espécie. A tilápia é famosa não só por seu filé saboroso, mas também pela rapidez com que se reproduz.

Ele contou que, na semana passada, a Polícia Ambiental esteve vistoriando os equipamentos e a documentação dos pescadores que estão em Itapuí e, segundo ele, nenhuma irregularidade foi encontrada.

Por se tratar de um grupo de pescadores profissionais, mesmo em época de piracema, como agora, a pesca pode ser feita normalmente, desde que com redes com até 100 metros de comprimento e malhas com aberturas não muito pequenas.

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