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Bauru precisa de parceria para crescer

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 12 min

Empresário experiente e diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, Ricardo Marques Coube acredita no poder dos projetos realizados em parceria entre entidades privadas e governo municipal para que a cidade alcance índices positivos de crescimento.

“O que diferencia uma cidade da outra é o que eu chamo de vocação desenvolvimentista. Essa vocação, Bauru perdeu. Precisamos ter prefeitos que valorizem o papel de atuar em conjunto com a iniciativa privada, e aí entra o Ciesp, para desenvolver trabalhos que possam realmente atrair empresas”, analisa.

Com uma visão de futuro que vai muito além das teorias econômicas, ele vê com otimismo as possibilidades de amadurecimento para Bauru na próxima década.

Crítico contumaz da pesada carga tributária que assola o empresariado e impede um crescimento mais acelerado do setor no País, Coube diz que não se pode mais pensar que a receita tributária será suficiente para fazer “tudo o que os políticos querem”, e volta a destacar a importância das parcerias.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida à reportagem.

Jornal da Cidade - Sempre que muda o governo municipal, a nova administração fala sobre a necessidade de atrair empresas para a cidade crescer. Na sua opinião, o que precisa ser feito neste momento para alcançar esse objetivo?

Ricardo Marques Coube - Para responder essa pergunta, é necessário fazer algumas reflexões. Aquela visão simplista de que a localização e a infra-estrutura da cidade são fundamentais faz parte, mas está longe de ser o apelo maior. Eu acho que as cidades que se deram melhor ultimamente conseguiram avançar baseadas em dois aspectos principais. O primeiro é o fato de possuir uma infra-estrutura logística de transporte, telecomunicação e energia muito boa. É por isso que o movimento é sempre de São Paulo para o Interior, porque pensa-se no mercado consumidor e no que vai suprir. Mas além do aspecto da logística, no qual o Estado de São Paulo é disparadamente o melhor, o que diferencia uma cidade da outra é o que eu chamo de vocação desenvolvimentista. Essa vocação, Bauru perdeu. Precisamos ter prefeitos que valorizem o papel de atuar em conjunto com a iniciativa privada, aí entra o Ciesp, para desenvolver trabalhos que possam realmente atrair empresas. O empresário que vem de fora, prioritariamente gosta de falar com empresários para ouvir a opinião deles sobre a cidade. Então, em Bauru esse é um trabalho que precisa ser feito em conjunto.

JC - Mas você acha que essa realidade do trabalho em parceria está próxima?

Coube - Isso é um processo gradativo, mas que já está chegando aqui na minha opinião. Se Bauru souber aproveitar isso, acredito que nos próximos cinco ou dez anos nós poderemos dar um grande passo nesse sentido. Duas questões de infra-estrutura poderiam ajudar bastante nesse processo: o novo aeroporto e a ferrovia, que está abandonada mas que pode fazer uma ligação importante de Bauru com a região Centro-Oeste do País e com o Porto de Santos. Se aliarmos essa logística à estrutura de rodovias que já nos favorece, não tenho dúvidas de que a nossa região terá todas as condições para um desenvolvimento expressivo nos próximos anos. É um trabalho que passa pelo sentimento de vocação. É preciso que o governo trabalhe de forma articulada com as entidades privadas e de classe na busca dessas condições ideais para que as empresas optem por Bauru e não por outras cidades.

JC - Falando em parcerias, qual é a sua visão em relação às Parcerias Público-Privadas (PPPs)?

Coube - Se formos analisar de uma forma pura e politicamente correta do ponto de vista de seriedade e de proposta, eu diria que seja PPP, seja concessão, seja privatização, todas essas alternativas devem fazer parte de uma visão de gestão política. Precisamos nos conscientizar de que a realidade que está diante de nós é de um esgotamento de receitas públicas por via de tributação. O Brasil é um País que tributa muito, e tributa mal, usa mal esses recursos e nós já ultrapassamos a capacidade contributiva de empresários e cidadãos. Então, temos que rever esse modelo. Quando se raciocina assim, isso vale inclusive para o município. Apesar de valer muito mais em nível de federação, acho que o município tem a sua parcela nesse processo. Ou seja, não adianta mais achar que se aumentar o imposto aqui, rever o IPTU ali, se fizermos isso e aquilo vai resolver. Pode até resolver isoladamente, mas de qualquer forma você vai estar tirando dinheiro do consumo - aquele consumo que gera renda, emprego, que movimenta o comércio, a indústria e os serviços -, para ficar utilizando em obras públicas, quando existem investidores no mundo inteiro ávidos por aplicar o seu dinheiro em projetos públicos ou privados. O que se questiona no Brasil, até porque trata-se de uma experiência recente dos últimos dez anos, é se as privatizações e concessões foram feitas de forma correta ou incorreta. Mas isso é um processo que amadurece e no qual também se aprende fazendo. Pensando assim, eu digo que não sou contra (as PPPs); muito pelo contrário. Eu acho que o segredo é saber fazer. E o grande objetivo de saber fazer é cada vez mais o dinheiro público ser investido em prioridades sociais.

JC - Em outras ocasiões, você já disse à reportagem que o Brasil caminha para uma estagnação no crescimento. A principal causa disso é a alta carga tributária?

Coube - O atual modelo é muito perverso. O governo federal precisa aliviar a carga tributária para que as empresas possam cumprir com seu papel de expandir seus negócios e gerar empregos. Eu vejo o País caminhando para uma estagnação insustentável, porque o crescimento que ocorreu no ano passado e que deve ocorrer neste ano de 2005 não se sustenta no futuro se não houver uma revisão de papéis e todo esse processo for corrigido com o intuito de definir o que o governo vai fazer, o que a iniciativa privada vai fazer e o que pode ser feito por meio de parcerias e concessões. O que não pode é ficar achando que a receita tributária vai ser suficiente para fazer aquilo tudo que os políticos querem.

JC - Pela sua experiência no Ciesp, você acha que o empresariado de Bauru está aberto a fazer parcerias com o governo municipal visando melhorias para o município?

Coube - O que tem faltado em Bauru nos últimos anos é um poder público mais acessível a esse tipo de iniciativa conjunta. Todos os casos que a gente tem conhecimento em que a iniciativa privada foi chamada para colaborar, isso ocorreu. Mais recentemente essa parceria ocorreu na construção de creches e do hangar que abriga o helicóptero da Polícia Militar, por exemplo. Há uma infinidade de realizações no município que são fruto de trabalhos empresariais. Você vê a sociedade se mobilizando para cumprir papéis adicionais que não seriam dela, mas há enorme satisfação em fazer desde que haja a disposição e o incentivo do governo e outras entidades para se trabalhar em conjunto. Quando você tem um parceiro extremamente sério e correto, como a Polícia Militar no caso do hangar construído em parceria com o Ciesp, o trabalho sempre será bem-sucedido e beneficiará a comunidade em geral. Mas é preciso haver essa boa intenção para fazer trabalhos em conjunto, sem capitalizar isso politicamente. O empresário não tem tanto prazer em atender políticos, ele tem muito mais prazer em atender causas sociais nobres e duradouras.

JC - Diante disso, a atual diretoria regional do Ciesp tem a intenção de fazer outras campanhas de interesse municipal, como a que foi lançada este ano para incentivar o pagamento antecipado do IPVA visando um alívio ao orçamento da prefeitura?

Coube - Nós estamos procurando inovar um pouco nesse sentido. Nessa gestão do Ciesp regional, temos três pilares de atuação: indução de negócios, representatividade política e o braço social. Neste Natal, tivemos uma experiência muito boa. Conseguimos, entre empresários, juntar mais de 600 brinquedos que foram distribuídos para crianças carentes do Jardim Nicéia. Essa experiência foi muito importante para sensibilizar os empresários ligados ao Ciesp de que, conjuntamente, talvez seja mais interessante concentrar os esforços das empresas fazendo um trabalho social direcionado, de tal forma que a capitalização sobre o benefício seria muito maior para a sociedade, do que ficarmos nessa convivência individual com entidades de classe que todos os dias batem à porta das empresas pedindo ajuda. A nossa intenção é de que o Ciesp coordene trabalhos de tal forma que, com a união de esforços, possamos ancorar projetos muito mais significativos. Já temos uma proposta para a área de saúde que será apresentada aos associados do Ciesp em fevereiro, e vamos tentar colocar em prática esse projeto com o apoio de empresários. Isso nunca vai impedir que as empresas continuem com projetos sociais que já desenvolvem individualmente.

JC - O que você espera do novo secretário municipal de Desenvolvimento Econômico?

Coube - O Walace (Sampaio) é uma pessoa muito experiente, tem um trânsito ótimo com todos do comércio e indústria. Eu acho que, dentro das alternativas existentes, o prefeito foi muito feliz na sua escolha. É uma pessoa que tem vivência além de Bauru, o que eu acho muito importante. Ele tem uma visão macro do conjunto econômico e navega nos temas nacionais com muita facilidade, coisa que faz parte da rotina das indústrias. Então, é muito importante termos interlocutores que saibam entender toda a grandeza do nosso meio.

JC - Você acha que existe alguma medida urgente ou fundamental a ser tomada pelo secretário visando o desenvolvimento da cidade?

Coube - É difícil opinar sem saber qual será a disponibilidade financeira da prefeitura para os próximos meses. Eu imagino que o governo municipal vai ter que ser muito cuidadoso em definir prioridades para atuar, pois se quiser fazer um pouco de tudo, vai acabar não fazendo nada. Eu acho que o primeiro ou os primeiros dois anos vão ser difíceis no sentido de uma enorme restrição no poder de investimento e de utilização do dinheiro público em alguma obra. Do ponto de vista nosso (dos empresários), se houver a prioridade de cuidar minimamente dos Distritos Industriais, será um grande passo. Em termos econômicos, lutar pela viabilização do novo aeroporto, por exemplo, seria muito importante, bem como revitalizar a ferrovia, entre outras coisas. Na medida em que Bauru se mostrar apoiando projetos federais ou estaduais e sabendo cuidar da sua base, a gente já começa a passar uma imagem de cidade que está enxergando o futuro, que quer o futuro, que tem essa disposição de desenvolvimento econômico, de atração de empresas e que vê o empresário investidor como um eventual futuro parceiro. Mas eu acho que o Walace tem muita facilidade para enxergar isso tudo e é muito provável que ele assuma essas coisas como prioridades.

JC - Ao longo de 2004, a região de Bauru registrou índices muito positivos de crescimento no nível de emprego industrial. Que tipos de incentivos ainda faltam para que os empresários do setor possam investir na expansão dos negócios e gerar ainda mais postos de trabalho?

Coube - Essa é uma questão basicamente estadual e federal. Nós temos que reconhecer que o governador do Estado tomou medidas recentes muito positivas, baixando carga tributária e incentivando investimentos e exportações. Eu acho que essa linha tem que estar em primeiro plano inclusive para governo municipal. Eu cansei de ouvir de vereadores, na época da revisão do ISS, que os bancos seriam mantidos na alíquota máxima de 5%. Eu também sou contra o sistema financeiro, só que a gente se esquece que algumas medidas são como dar um tiro no pé, porque isso vem para o custo do dinheiro, para o spread, em tudo. Achar que se está tributando os bancos é uma piada, porque eles estão repassando isso para os clientes, que somos todos nós. Não adianta pensar em privilegiar esse ou aquele setor. No Brasil, tem que se pensar em aumentar a base de arrecadação, fazendo com que diminua a sonegação fiscal e a inadimplência, e facilitar para que todos paguem impostos. Pagando menos, a gente pode arrecadar mais e estimular um ambiente econômico com isonomia competitiva. Se tributar muito aqui, o sujeito muda para Agudos ou Piratininga. Eu acho que existe uma linha macro que precisa ser seguida em nível municipal. A outra linha é a de que Bauru se integre à política dos governos do Estado e federal no sentido de buscar, com o apoio deles, aquilo que nos falta em termos de logística, de transporte etc. Nós temos a Eadi aqui em Bauru. Quanto mais autonomia ela tiver como entreposto aduaneiro e isso facilitar a importação e exportação, será um grande incentivo para as empresas exportadoras e importadoras estarem próximas daqui. Isso faz parte do que eu sempre chamei de vocação.

JC - A divisão de comando entre o Ciesp em São Paulo e a Fiesp tem gerado problemas para o setor?

Coube - Se a acomodação ainda não chegou a 100%, já está pelo menos em 90%. Passada a fase em que as duas entidades estavam se reestruturando de forma independente, a tendência que estamos observando é de que os objetivos e o foco de desenvolvimento vão falar mais alto do que os interesses menores. Então, tudo leva a crer que teremos duas entidades independentes do ponto de vista de gestão, mas que em termos práticos estarão se complementando de uma forma muito interessante, muito positiva. Aqui em Bauru, temos grande expectativa de que isso tenha reflexos muito positivos, num cenário em que Ciesp, Sesi e Senai continuem trabalhando de uma forma complementar, articulada e em torno dos interesses e demandas regionais. Será positivo no sentido de que haverá um fortalecimento do conjunto, com cada um cumprindo o seu papel do ponto de vista de gestão e financeiro. Então, isso vai acabar contribuindo para um enorme fortalecimento da entidade no Estado de São Paulo. Aqui em Bauru, nós iremos tirar muito proveito desse fortalecimento. O nosso pilar de indução de negócios vai estar muito ligado com o Ciesp em São Paulo.

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