O prefeito Tuga Angerami começou bem ao anunciar a criação de uma Controladoria-Geral do Município destinada a garantir maior transparência aos negócios públicos e fiscalizar a eficiência da máquina administrativa. Espera-se que o “inspetor geral” seja diferente daquele personagem criado por Nicolai Gogol, autor russo de uma das maiores sátiras sobre as malversações que se fazia com o dinheiro público no início do século passado e que hoje continua no mesmo diapasão aqui e alhures. “É preciso democratizar a democracia” – sentenciava o sociólogo britânico Anthony Giddens, um dos criadores do neoliberalismo. O guru de Fernando Henrique Cardoso e Tony Blair nada tem a ver com as besteiras cometidas em nome da sua doutrina política e que estão sendo ampliadas por Lula da Silva. O que Giddens prega é a extinção do Estado esbanjador, aquele que não custeia férias dos amigos do filho do presidente e muito menos a compra de avião de luxo. Isso não significa acabar com a Saúde, a Previdência e a Educação públicas. Pelo contrário, todo administrador público precisa lutar para melhorar e otimizar os recursos nem que para isso tenha que acabar com as mamatas, privilégios e desvios.
Há uma diferença entre “democracia” e “democratismo”. O primeiro substantivo, como todos nós sabemos, significa “governo do povo”, “soberania popular”, o regime político baseado na distribuição eqüitativa do poder e pelo controle da autoridade. O democratismo, termo criado por Bobbio, diz respeito àquele faz-de-conta que os demagogos praticam de ouvir o povo apenas por ouvir porque as decisões foram tomadas de antemão. Faz de conta que foi o povo que decidiu sobre fórmulas feitas.
Tuga terá que submeter à população o que fazer com a falta de dinheiro. São R$ 35 milhões de dívidas vencidas e que precisam ser pagas porque englobam - tristeza - vencimentos dos funcionários. Parece ironia, mas não é. Um líder empresarial - Ricardo Coube, é bom que se diga - sugeriu outro dia que paguemos o IPVA à vista. Além de ser um ótimo investimento financeiro gozar do desconto de 3,5%, quem pode vai ajudar o município falido que capa 50% do arrecadado, no ato. A mesma bravura cívica poderá ser praticada em relação ao IPTU. Outras idéias poderão surgir. É preciso acreditar na criatividade do povo. Está na hora do prefeito de Bauru começar a gerir em benefício da população mobilizando seus moradores a participar das decisões. O modelo vigora, com muito sucesso, em Joiville, Santa Catarina, mas pode ser aplicado em outras cidades, pois a idéia central é elevar a comunidade de objeto e protagonista da história do presente para o futuro, pois é ela que constrói o tecido social. Nada a ver com que o Lula disse sobre “planejar e projetar o futuro”. Ninguém planeja e muito menos projeta o passado. Existe um livro interessante sobre isso (Pagnoncelli & Aumond, Ed. Elsevier/campus) no qual fica claro que “um dos atos políticos mais significativos é o de criar oportunidades para os cidadãos poderem se encontrar para pensar a construção do futuro, visualizar os futuros possíveis, fazerem escolhas: criarem a memória da sua cidade do futuro a partir do aqui e agora”. E como ensina um provérbio dos índios americanos “ao tomar uma decisão pense nas conseqüências até a 6.ª geração”. Aqui na Província os prefeitos ultimamente têm pensado na próxima eleição. Assim mesmo depois que instituíram a possibilidade da reeleição. Quando se trata de um candidato à sucessão pré-fabricado, o prefeito cessante quer mesmo é que seu candidato se estrepe. Quanto pior, melhor. Sobra mais dinheiro na caixinha.
É preciso que o novo prefeito saiba se acercar de gente séria. E isso Tuga sabe fazer. Mandou para o DAE o vereador Clemente, “um homem sem jaça”, como se dizia antigamente. Descobriu logo que a prefeitura e a Emdurb devem R$ 50 milhões de consumo de água à autarquia. Esse dinheiro já é suficiente para a construção da estação do tratamento de esgoto. Problema resolvido. Deixarão de existir as tais multas diárias impostas pelo Ministério Público pelo não cumprimento da obrigação de investir em saneamento básico.
O homem certo no lugar certo. Um homem puro que jamais fará mutretas para aditivar contratos ou contratar sem licitação. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)