Transformar argila em uma pequena botija consome horas do ceramista José Roberto Lopes, conhecido como Pererê. Assim, apenas ouvindo o barulho do motor do torno que move a plataforma onde o barro vai girando e ganhando forma é que ele passa seus dias no Tangarás. De suas mãos habilidosas saem vasos de cinco centímetros a 1,10 de altura, tipos diferentes de moringas e filtros para água, vasos para delicadas orquídeas e minifontes e minijardins. Chega a produzir 100 vasos de 40 centímetros de altura por dia.
Desde que fundou a Cerâmica Costa Lopes, há 18 anos, reside em um imóvel anexo ao galpão da fábrica. Herdeiro de uma tradição familiar de ceramistas, nos seus quase 50 anos de vida, 41 são dedicados ao ofício. Ele é a terceira geração de artesãos da família. Trabalhou junto com seu pai, José Faria Lopes, como empregado para tios e padrinhos na cerâmica fundada por seu bisavô. Quando percebeu que dominava a técnica, resolveu abrir seu próprio negócio. No acerto, saiu da empresa com um torno e uma kombi para montar sua empresa em 1987, inicialmente no bairro Colina Verde, nos fundos de casa.
Dia após dia, cercados por objetos de barro, a vida passa e a cerâmica une cada vez mais a família. Todos convivem harmoniosamente, cada qual com uma importante missão que garante o sucesso do negócio familiar. Como eles próprios dizem, o cérebro do negócio é Teca, esposa de Pererê, que é o coração da fábrica. A nova geração de ceramistas já está sendo formada pelo casal. O filho José Roberto Costa Lopes, de 23 anos, que já molda vasos, queima no forno, atende os fregueses, mas ainda não tem o mesmo traquejo demonstrado pelo pai.
O filho diz que, certa vez, o pai cogitou parar com o negócio, mas a idéia foi rapidamente superada. “Acho que se fechar, dá um troço no meu pai”, ressalta.
Nas prateleiras, peças minúsculas estão lado a lado com vasos de até 70 centímetros, formando um estoque variado de produtos. A empresa também atende pedidos sob encomenda.
Antigamente, a cerâmica entregava um modelo mais antigo de moringa no Paraná. Se hoje as exigências são outras, eles foram capazes de se adaptar às necessidades de mercado e não faltam compradores para a cerâmica produzida em Bauru. Augusto Medeiros veio de Marília para buscar luminárias em Bauru. Freguês há seis anos, ele é dono de uma empresa de paisagismo e se adaptou bem com a cerâmica feita por José Roberto Lopes. “Preço bom, qualidade ótima. São espetaculares e ainda cumprem os prazos”, avalia. Um dos clientes mais antigos é a floricultura Kurozawa, em Bauru.
Do barro ao vaso
Um vaso de concreto fica pronto para uso em pouco tempo, devido à secagem rápida do cimento. Uma peça de cerâmica leva semanas para ficar acabada. Depois de moldada, a peça precisa de um tempo para a secagem. Em média, são 15 dias para ficar pronta. Depois de moldada a peça “descansa” por cinco dias. Daí vem o acabamento e mais dez dias de secagem.
A temperatura final do forno chega a 900º centígrados. Porém, essa temperatura é controlada. Começa fraca porque, como o barro é gelado, se forçar estoura. Por isso, o forno tem que ser vigiado o tempo todo, já que o processo de queima não é interrompido um só instante, com a fábrica funcionando 24 horas.
José Roberto Lopes faz todo o processo manualmente. Apenas a mistura é feita por um misturador conhecido como pipa. Pererê diz que se for implantar maquinário na fábrica “fica mais caro o molho do que o peixe”.
Nenhum dos funcionários consegue ter o mesmo desempenho de Pererê. O artesão dá forma em segundos a um vaso pesa em média oito quilos.
Com isso, o trabalho é muito intuitivo e vale a experiência adquirida. A argila vem de Macatuba e a lenha para os fornos são sobras de eucalipto para poste, que são cortados antes do tratamento da madeira.